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28 Mar 2025, Fri

Talarico é gíria com registro em cartório – 02/10/2024 – Sérgio Rodrigues

O conselho de Millôr Fernandes sobre não ampliar a voz dos imbecis quase me levou a procurar outra palavra como tema da coluna de hoje. Ocorre que, por alguma razão, o substantivo “talarico” já vivia um pico de popularidade antes de ser convocado para adensar a baixaria da campanha pela Prefeitura de São Paulo.

Talarico(a), para quem não sabe, é quem rouba ou tenta roubar o(a) namorado(a) da(o) amiga(o) —assim mesmo, com todos esses parênteses e mais os que se achar prudente acrescentar. Trata-se de termo relativamente recente, sinônimo do também informal fura-olho.

Gírias desse tipo nunca são criadas na Academia Brasileira de Letras. Seu caldo de cultura é popular, muitas vezes ligado à marginalidade, quando não ao jargão da bandidagem profissional. No entanto, é preciso ter cuidado na hora de determinar sua origem.

Uma “cartilha do PCC” que circulou há poucos meses, com dezenas de “leis do crime”, tinha como artigo primeiro um certo “ato de talarico”, que ocorre “quando o envolvido tenta induzir (sic, provavelmente seduzir) a companheira de outro e não é correspondido”.

Isso parece ter sido decisivo para que se espalhasse por diversos sites a informação de que a palavra nasceu como “gíria de presidiários” —que, como se pode imaginar, são mesmo uma população especialmente vulnerável à talaricagem.

No entanto, ainda que não se discuta o sucesso que o modismo vocabular faz na cadeia, sua fonte documentada aponta para uma difusão bem mais ampla.

Talarico é uma daquelas gírias raras que têm certidão de nascimento. Zeca Pagodinho reivindica sua paternidade (em parceria com Serginho Procópio) num samba de 1992, “Talarico Ladrão de Mulher”, que tem como refrão “Eu não falo mais com Talarico/ Talarico roubou minha mulher”.

Em entrevistas, o sambista carioca já declarou que escolheu o nome do “ladrão de mulher” —na verdade, um sobrenome de origem italiana— apenas pela sonoridade, inspirado num personagem do humorista Agildo Ribeiro (1932-2018).

Curiosamente, outra expressão popular de origem verificável, esta ainda mais bem-sucedida e com jeito de ter vindo para ficar, explodiu nacionalmente naquele mesmo 1992.

Mais precisamente no dia 31 de julho, quando uma secretária chamada Sandra Fernandes de Oliveira depôs na CPI que investigava o enriquecimento do então presidente Fernando Collor e, corajosa, contribuiu para que ele terminasse deposto.

“Se isso realmente acabar em pizza, como querem alguns, acho que é o fim do país”, declarou, usando a expressão familiar, inspirada pelo radialista esportivo palmeirense Milton Peruzzi (1913-2001), com que ela e a irmã comentavam na juventude as reconciliações com namorados.

Assim, o que era um bordão radiofônico de alcance regional —e àquela altura já bem esquecido— se consagrou instantaneamente como expressão máxima do velho vício nacional da acochambração e da impunidade.

O valor de contar a história de expressões populares com rigor factual não deve ser subestimado. Entre lendas sem fundamento e a escuridão, o mais comum é que não se faça ideia de onde vieram. Até aí morreu o Neves —que ninguém sabe quem foi.


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