Em países desenvolvidos como o Reino Unido, o percentual de jovens entre 16 e 24 anos que relatam problemas de saúde que limitam suas atividades diárias quase triplicou nos últimos anos, passando de 7% em 2008 para alarmantes 20% atualmente. Esse dado, destacado pelo jornalista John Burn-Murdoch, acende um alerta sobre uma tendência: enquanto as mulheres jovens avançam em educação, carreira e renda, uma parcela significativa dos homens jovens parece estar ficando para trás.
Nas últimas décadas, as mulheres têm superado seus pares masculinos em desempenho acadêmico e acesso ao ensino superior. A proporção delas frequentando universidades supera significativamente a de homens, em alguns países ricos. Esse fenômeno, que inicialmente parecia apenas equilibrar as disparidades históricas de gênero, agora está se traduzindo em lacunas no mercado de trabalho e na renda, com mulheres jovens assumindo a dianteira.
No Reino Unido, por exemplo, 2022 marcou a primeira vez em que a renda média das mulheres jovens ultrapassou a dos homens na mesma faixa etária. Essa inversão não se deve apenas ao mérito feminino, mas também ao declínio das perspectivas econômicas para homens sem diploma universitário.
Richard Reeves autor de “Of Boys and Men” aponta para uma crise de identidade masculina. Segundo ele, a falta de modelos positivos de masculinidade e a ausência de políticas que abordem suas necessidades específicas contribuem para esse cenário. Reeves ressalta que muitos desses jovens se sentem “politicamente desabrigados”, o que os torna suscetíveis a discursos populistas e extremistas, como os redpill.
O aumento do apoio a partidos de extrema-direita entre homens jovens não é apenas um fenômeno político, mas também o sintoma de um sentimento de exclusão e falta de propósito. Sem perspectivas claras de carreira ou principalmente papel social, podem recorrer a comportamentos autodestrutivos ou antissociais.
Enquanto isso, as mulheres jovens enfrentam seus próprios desafios. Embora tenham avançado em educação e carreira, muitas encontram dificuldades na formação de relacionamentos estáveis, dada a escassez de parceiros em pé de igualdade socioeconômica e educacional. Essa dinâmica gera tensões nas relações interpessoais.
A transição de economias industriais para sociedades baseadas no conhecimento e em serviços tem deslocado empregos tradicionalmente ocupados por homens. Além disso, modelos ultrapassados de masculinidade, que valorizam a força física e a independência a qualquer custo, não oferecem ferramentas para que os homens jovens naveguem nas complexidades do mundo contemporâneo.
Então é necessário repensar o que significa ser homem no século 21. Reeves sugere redefinir a masculinidade como um compromisso com o serviço aos outros. Ele enfatiza valores como empatia, colaboração e responsabilidade social. Isso não significa abandonar características tradicionalmente masculinas, mas ampliá-las e adaptá-las às demandas atuais.
Alguns países desenvolvidos como Suécia, Canadá e Austrália já reconhecem que políticas públicas são fundamentais nessa transformação. Investir na educação de meninos, em programas de saúde mental e em iniciativas que promovam a inserção de homens jovens no mercado de trabalho é essencial. Líderes políticos devem abordar essas questões de forma construtiva, evitando polarizações e estereótipos.
No Brasil, também podemos começar a agir. É crucial iniciar debates sobre o papel dos homens jovens em nossa sociedade. Assim, podemos prevenir desafios futuros e promover um ambiente onde todos prosperem, independente do gênero.