Futura estação de metrô é chamada de Aquaman por moradores da Pompeia
São Paulo — A futura Estação Sesc-Pompeia, da Linha 6-Laranja de metrô, em São Paulo, já ganhou de moradores da região o apelido de “Aquaman”, em homenagem ao herói anfíbio, com nado supersônico e capacidade de sobreviver mesmo nas profundezas do mar. Caso os alagamentos persistam até o ano que vem, para quando está prevista a inauguração, só com essas características sobre humanas será possível entrar ou sair da estação em meio a um temporal.
Na tempestade de 24 de janeiro, o que não faltou foi evidência de que o sistema de drenagem implantado na região é insuficiente para dar conta de tanta água. Como o Metrópoles mostra nesta quarta-feira (26/2), mesmo a obra milionária feita na década passada não resolveu o problema das enchentes na região. E a Prefeitura de São Paulo tampouco implementou, até o momento, as soluções previstas em estudos da própria administração, entregues em 2019, há seis anos.
Imagens que circulam entre os próprios moradores mostram operários ilhados no topo da estação, enquanto a correnteza escorre forte pela Avenida Pompeia. Não por acaso, a futura parada da Linha 6-Laranja, que vai transportar mais de 630 mil passageiros por dia, está no caminho de um entre centenas de cursos d’água que foram enterrados durante o processo de urbanização de São Paulo.
O Córrego Água Preta nasce na altura da Praça Diogo do Amaral, na Vila Romana, e serpenteia pelo bairro até o trecho mais baixo da Rua Venâncio Aires, justamente onde está sendo construída a estação de metrô.
Por lá, uma antiga galeria subterrânea esconde o Água Preta, passa por trás de alguns imóveis e também pelos fundos da Estação Sesc-Pompeia.
Pouco antes do muro do Sesc, na Rua Barão do Bananal, há um extravasor que serve como um “respiro” para que a água em excesso saia da velha galeria. Em meio ao temporal de 24 de janeiro, um carro foi arrastado até esse ponto e tapou a entrada de um canal de escoamento superficial, que serve justamente para aliviar o Água Preta. O resultado foi um alagamento colossal.
Para piorar a situação, a Rua Venâncio Aires vira rio de correnteza forte durante os temporais. Em um prédio em construção naquela rua, em frente à obra do metrô, a água chegou a 1,50 metro de altura durante o alagamento.
A exemplo de outros bairros da capital paulista, as regiões de Perdizes e Lapa vivem um “boom imobiliário”, com a substituição de pequenas casas e sobrados por prédios com dezenas de unidades. A liberação para a construção desses empreendimentos ocorre mesmo com a drenagem urbana insuficiente. Só no primeiro semestre de 2024, foram lançados 880 apartamentos nos dois bairros.
Prejuízo
O comerciante e designer Carlos Gomes de Oliveira, 68 anos, viu a sua loja de bolsas de couro ficar submersa durante o temporal de 24 de janeiro. Para ele, a situação se agravou principalmente em decorrência das obras da Linha 6-Laranja, sob responsabilidade da Linha Uni, da empresa espanhola Acciona.
“A chuva foi forte, todos os moradores, inclusive eu, a gente se previne com comportas, mas todo esse prejuízo que a gente acabou tendo se deu por causa do afunilamento da vazão de água da rua e dessa parte que é uma galeria. De 7 metros, reduziram para 3 metros [de largura]”, afirma Oliveira.
https://www.youtube.com/watch?v=L-eXY4IPp20
A Venâncio Aires ficou mais estreita pouco antes da chegada à Avenida Pompeia, justamente por causa da construção do metrô. Nos fundos das casas, um tapume no início do terreno da futura estação também diminuiu a largura sobre a galeria.
“Qualquer pessoa entende que se lá está reduzido, a altura da água vai aumentar. Por quê a chuva nos trouxe esse prejuízo? Estávamos preparados para um nível de enchente, mas em função do afunilamento, extrapolou.”
O comerciante pede urgência na solução, antes que outra chuva cause uma tragédia. “A gente prefere acreditar em Papai Noel do que na construção de piscinões, né? O que é uma posição e providência urgente é exatamente tirar esse afunilamento, tanto da rua quanto dessa parte da galeria”, diz.
“A empresa Acciona, que está construindo o metrô, se diz vítima da enchente também. Lógico que, quando fizeram o projeto da estação, ela sabia que enchia aqui. Acontece que, com esse afunilamento nas duas áreas, isso não contribuiu com o prejuízo deles próprios, mas de todos os moradores da rua”, afirma Oliveira. “A gente só espera que a empresa acate as nossas reclamações e retire esse afunilamento o mais rápido possível, porque outras chuvas virão”, diz.
O que diz a LinhaUni
A concessionária Linha Uni, da Acciona, diz que para a construção de todas as estações de metrô é necessário realizar estudos hidrológicos, nos quais são feitos cálculos do tempo de recorrência das chuvas e dos fatores de acumulação, com o objetivo de identificar e prever o nível de elevação em relação a possíveis inundações.
“Assim, a arquitetura da infraestrutura de mobilidade é planejada considerando o nível máximo de água devido às chuvas que podem ser registradas na região utilizando um tempo de recorrência adequado”, diz.
No caso da estação Sesc-Pompeia, a Linha Uni afirma que, “como é de conhecimento geral”, a área tem um histórico de alagamentos durante a época das chuvas, o que fez com que fosse construída de “forma adequada com maior altura, bem como seus acessos havendo uma compatibilização dos níveis através de escadas, muros, rampas, entre outros”.
Sobre o alagamento registrado em 24 de janeiro, a Linha Uni diz que “não houve danos e nem atrasos ao cronograma da obra. Já sobre a ação do Corpo de Bombeiros, a corporação foi chamada por moradores próximos ao local e não houve feridos e nem funcionários resgatados”.
O que diz a prefeitura
A Prefeitura de São Paulo diz, por meio da SPObras, que está em andamento a elaboração dos projetos básicos e executivos para a drenagem complementar das bacias dos córregos Água Preta e Sumaré, como parte da Operação Urbana Água Branca.
“A previsão é que as obras sejam licitadas neste ano. Outras quatro intervenções como os reservatórios da Praça Irmãos Karman, Caiubi, Venâncio Aires e Praça Rio dos Campos estão previstas no Plano de Ação 2025-2040 da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e devem ocorrer de acordo com o sistema de hierarquização do plano, baseado em aspectos técnicos e objetivos”, afirma, em nota.
A prefeitura diz que faz a limpeza periódica na região com desobstrução de bocas de lobo, poços de visitas e galerias. “Em 2024, foram limpos 3.059 metros de galerias e ramais e 618 bocas de lobo e poços de visitas. Também foram reformadas 4.110 bocas de lobo e poços de visitas, além de grelhas trocadas”, afirma.
Já a SP Urbanismo diz que foram liberados R$ 613.473,15 da Operação Urbana Água Espraiada para os projetos da canalização do Córrego Água Preta, recursos provenientes da outorga onerosa.
“O adensamento construtivo e populacional na região segue as diretrizes do Plano Diretor Estratégico e da Lei de Zoneamento, elaborados em 2014 e 2016, respectivamente. Em 2023, a gestão municipal atualizou essas normas, adotando parâmetros mais rigorosos para garantir qualidade ambiental, permeabilidade do solo e eficiência da drenagem urbana em novas construções”, diz.
O ex-prefeito e atual ministro Fernando Haddad (PT) foi procurado, mas não se manifestou até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.
São Paulo — A futura Estação Sesc-Pompeia, da Linha 6-Laranja de metrô, em São Paulo, já ganhou de moradores da região o apelido de “Aquaman”, em homenagem ao herói anfíbio, com nado supersônico e capacidade de sobreviver mesmo nas profundezas do mar. Caso os alagamentos persistam até o ano que vem, para quando está prevista a inauguração, só com essas características sobre humanas será possível entrar ou sair da estação em meio a um temporal.
Na tempestade de 24 de janeiro, o que não faltou foi evidência de que o sistema de drenagem implantado na região é insuficiente para dar conta de tanta água. Como o Metrópoles mostra nesta quarta-feira (26/2), mesmo a obra milionária feita na década passada não resolveu o problema das enchentes na região. E a Prefeitura de São Paulo tampouco implementou, até o momento, as soluções previstas em estudos da própria administração, entregues em 2019, há seis anos.
Imagens que circulam entre os próprios moradores mostram operários ilhados no topo da estação, enquanto a correnteza escorre forte pela Avenida Pompeia. Não por acaso, a futura parada da Linha 6-Laranja, que vai transportar mais de 630 mil passageiros por dia, está no caminho de um entre centenas de cursos d’água que foram enterrados durante o processo de urbanização de São Paulo.
O Córrego Água Preta nasce na altura da Praça Diogo do Amaral, na Vila Romana, e serpenteia pelo bairro até o trecho mais baixo da Rua Venâncio Aires, justamente onde está sendo construída a estação de metrô.
Por lá, uma antiga galeria subterrânea esconde o Água Preta, passa por trás de alguns imóveis e também pelos fundos da Estação Sesc-Pompeia.
Pouco antes do muro do Sesc, na Rua Barão do Bananal, há um extravasor que serve como um “respiro” para que a água em excesso saia da velha galeria. Em meio ao temporal de 24 de janeiro, um carro foi arrastado até esse ponto e tapou a entrada de um canal de escoamento superficial, que serve justamente para aliviar o Água Preta. O resultado foi um alagamento colossal.
Para piorar a situação, a Rua Venâncio Aires vira rio de correnteza forte durante os temporais. Em um prédio em construção naquela rua, em frente à obra do metrô, a água chegou a 1,50 metro de altura durante o alagamento.
A exemplo de outros bairros da capital paulista, as regiões de Perdizes e Lapa vivem um “boom imobiliário”, com a substituição de pequenas casas e sobrados por prédios com dezenas de unidades. A liberação para a construção desses empreendimentos ocorre mesmo com a drenagem urbana insuficiente. Só no primeiro semestre de 2024, foram lançados 880 apartamentos nos dois bairros.
Prejuízo
O comerciante e designer Carlos Gomes de Oliveira, 68 anos, viu a sua loja de bolsas de couro ficar submersa durante o temporal de 24 de janeiro. Para ele, a situação se agravou principalmente em decorrência das obras da Linha 6-Laranja, sob responsabilidade da Linha Uni, da empresa espanhola Acciona.
“A chuva foi forte, todos os moradores, inclusive eu, a gente se previne com comportas, mas todo esse prejuízo que a gente acabou tendo se deu por causa do afunilamento da vazão de água da rua e dessa parte que é uma galeria. De 7 metros, reduziram para 3 metros [de largura]”, afirma Oliveira.
https://www.youtube.com/watch?v=L-eXY4IPp20
A Venâncio Aires ficou mais estreita pouco antes da chegada à Avenida Pompeia, justamente por causa da construção do metrô. Nos fundos das casas, um tapume no início do terreno da futura estação também diminuiu a largura sobre a galeria.
“Qualquer pessoa entende que se lá está reduzido, a altura da água vai aumentar. Por quê a chuva nos trouxe esse prejuízo? Estávamos preparados para um nível de enchente, mas em função do afunilamento, extrapolou.”
O comerciante pede urgência na solução, antes que outra chuva cause uma tragédia. “A gente prefere acreditar em Papai Noel do que na construção de piscinões, né? O que é uma posição e providência urgente é exatamente tirar esse afunilamento, tanto da rua quanto dessa parte da galeria”, diz.
“A empresa Acciona, que está construindo o metrô, se diz vítima da enchente também. Lógico que, quando fizeram o projeto da estação, ela sabia que enchia aqui. Acontece que, com esse afunilamento nas duas áreas, isso não contribuiu com o prejuízo deles próprios, mas de todos os moradores da rua”, afirma Oliveira. “A gente só espera que a empresa acate as nossas reclamações e retire esse afunilamento o mais rápido possível, porque outras chuvas virão”, diz.
O que diz a LinhaUni
A concessionária Linha Uni, da Acciona, diz que para a construção de todas as estações de metrô é necessário realizar estudos hidrológicos, nos quais são feitos cálculos do tempo de recorrência das chuvas e dos fatores de acumulação, com o objetivo de identificar e prever o nível de elevação em relação a possíveis inundações.
“Assim, a arquitetura da infraestrutura de mobilidade é planejada considerando o nível máximo de água devido às chuvas que podem ser registradas na região utilizando um tempo de recorrência adequado”, diz.
No caso da estação Sesc-Pompeia, a Linha Uni afirma que, “como é de conhecimento geral”, a área tem um histórico de alagamentos durante a época das chuvas, o que fez com que fosse construída de “forma adequada com maior altura, bem como seus acessos havendo uma compatibilização dos níveis através de escadas, muros, rampas, entre outros”.
Sobre o alagamento registrado em 24 de janeiro, a Linha Uni diz que “não houve danos e nem atrasos ao cronograma da obra. Já sobre a ação do Corpo de Bombeiros, a corporação foi chamada por moradores próximos ao local e não houve feridos e nem funcionários resgatados”.
O que diz a prefeitura
A Prefeitura de São Paulo diz, por meio da SPObras, que está em andamento a elaboração dos projetos básicos e executivos para a drenagem complementar das bacias dos córregos Água Preta e Sumaré, como parte da Operação Urbana Água Branca.
“A previsão é que as obras sejam licitadas neste ano. Outras quatro intervenções como os reservatórios da Praça Irmãos Karman, Caiubi, Venâncio Aires e Praça Rio dos Campos estão previstas no Plano de Ação 2025-2040 da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e devem ocorrer de acordo com o sistema de hierarquização do plano, baseado em aspectos técnicos e objetivos”, afirma, em nota.
A prefeitura diz que faz a limpeza periódica na região com desobstrução de bocas de lobo, poços de visitas e galerias. “Em 2024, foram limpos 3.059 metros de galerias e ramais e 618 bocas de lobo e poços de visitas. Também foram reformadas 4.110 bocas de lobo e poços de visitas, além de grelhas trocadas”, afirma.
Já a SP Urbanismo diz que foram liberados R$ 613.473,15 da Operação Urbana Água Espraiada para os projetos da canalização do Córrego Água Preta, recursos provenientes da outorga onerosa.
“O adensamento construtivo e populacional na região segue as diretrizes do Plano Diretor Estratégico e da Lei de Zoneamento, elaborados em 2014 e 2016, respectivamente. Em 2023, a gestão municipal atualizou essas normas, adotando parâmetros mais rigorosos para garantir qualidade ambiental, permeabilidade do solo e eficiência da drenagem urbana em novas construções”, diz.
O ex-prefeito e atual ministro Fernando Haddad (PT) foi procurado, mas não se manifestou até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.
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