Quem são as forças motrizes do antissemitismo moderno? Essa é a questão central de uma conferência de dois dias sobre antissemitismo em Jerusalém, organizada pelo Ministério israelense de Assuntos da Diáspora e que começou nesta quarta-feira (26/03).
O evento está, porém, no centro de muitas críticas, pois a lista de convidados inclui alguns dos principais nomes da direita radical na Europa. Estão convidados o líder do partido francês Reunião Nacional (RN), Jordan Bardella, a eurodeputada francesa Marion Maréchal (neta do líder histórico da extrema direita francesa, Jean-Marie Le Pen, morto recentemente), um político do partido húngaro Fidesz, de Viktor Orbán, e um eurodeputado do partido Democratas Suecos.
Também é esperada a presença do presidente da República de Srpska (uma das duas entidades políticas em que está dividida a Bósnia e Herzegovina, sendo a outra a Federação da Bósnia e Herzegovina), Milorad Dodik, considerado amigo do presidente russo, Vladimir Putin. O convidado especial da conferência é o presidente argentino, Javier Milei.
Além da agenda anti-islã, o que esses nomes têm em comum é a proximidade com o governo israelense. Eles serão recebidos pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e seu ministro para Assuntos da Diáspora, Amirchai Chikli.
Críticas à escolha dos convidados
O tom anti-islã fica evidente já no programa da conferência, onde consta o tema “como o islamismo radical alimenta o antissemitismo ocidental”, e na presença de nomes como a ativista somali-holandesa-americana Ayaan Hirsi Ali e vários outros críticos do islã.
Já a conexão entre extremismo de direita e antissemitismo não faz parte do programa do evento, apesar de pesquisadores do antissemitismo e organizações judaicas estarem há anos alertando para os riscos que a ascensão da direita radical em todo o mundo representa para a vida judaica.
Assim, não é de se estranhar que haja críticas à escolha dos participantes. “Quem organiza uma conferência contra antissemitismo não pode, ao mesmo tempo, convidar antissemitas que estão propagando o veneno do preconceito e do ódio”, afirma o advogado e jornalista alemão Michel Friedman à DW. Friedman foi presidente do Congresso Judaico Europeu (CJE) e membro da direção do Conselho Central dos Judeus na Alemanha.
“O governo Netanyahu está se tornando cada vez mais desinibido e busca coalizões que são intoleráveis. Sabe-se que os laços com Viktor Órban na Hungria também são importantes para ele. Este governo está se movendo cada vez mais na direção da extrema direita. Isso é muito perigoso para Israel”, diz Friedman.
Muitos convidados cancelaram participação
Muitos na Europa compartilham dessas críticas: vários convidados já cancelaram sua participação, entre eles o chefe da organização judaica americana Liga Antidifamação, Jonathan Greenblatt, filósofo francês Bernard-Henri Levy e três convidados de alto escalão da Alemanha.
“Meu motivo para recusar o convite foi que eu não queria participar de uma conferência, ou mesmo de um painel, com pessoas com as quais as comunidades judaicas na diáspora não mantêm qualquer contato”, afirmou o encarregado do governo alemão para a vida judaica e o antissemitismo, Felix Klein, à DW.
O presidente da Sociedade Teuto-Israelense (DIG), Volker Beck, também se recusou a participar. “Fiquei surpreso ao ver que quase exclusivamente parlamentares da extrema direita foram convidados para a conferência. Muitos desses partidos não respeitam a religião judaica em seus próprios países.”
Selo de kosher
No centro das críticas está o governo de Benjamin Netanyahu. “A conferência é um grande problema para as comunidades judaicas na Europa”, escreve Ariel Muzicant, presidente do Congresso Judaico Europeu, num artigo para o jornal israelense Jerusalem Post. “Os políticos da extrema direita não estão participando da conferência por amor a Israel ou para proteger os judeus, mas principalmente para obter o selo de kosher.”
No jornal alemão Süddeutsche Zeitung, o renomado professor de história e cultura judaica Michael Brenner, da Universidade Ludwig Maximilian de Munique, descreve a conferência como uma capitulação à extrema direita. “Entre as comunidades judaicas fora de Israel, que se sentem cada vez mais pressionadas por ataques verbais e físicos, cresce a disposição de ver as forças de extrema direita e antimuçulmanas como supostas aliadas na luta contra o terror”, analisa Brenner em artigo intitulado Esta conferência é uma vergonha. “Elas esquecem que esses extremistas de direita desprezam os muçulmanos apenas um pouco mais do que os judeus, que também estão na lista negra deles.”
Também em Israel há muitas críticas à conferência. Numa audiência perante o Comitê de Imigração e Integração do Knesset, representantes da diáspora judaica criticaram o governo israelense por não ter sido ouvido sobre os convites a políticos da direita radical. O Ministério dos Assuntos da Diáspora argumentou que havia convidado representantes de diversas correntes políticas.
Protestos contra Netanyahu
O ministério reiterou essa posição à DW. “O evento recebe convidados de diferentes países e de diferentes correntes políticas. Todos compartilham de um objetivo: a luta intransigente contra o antissemitismo e a deslegitimação de Israel.” O ministério ainda negou que tenha havido vários cancelamentos.
Israel passa há dias por uma onda de protestos contra o governo de Netanyahu, motivados pelos temores em relação aos reféns israelenses que ainda estão na Faixa de Gaza. Opositores do governo acusam Netanyahu de fracassar nas negociações pela libertação deles e também protestam contra a retomada dos combates na Faixa de Gaza.
Friedman diz que os protestos são um bom sinal. “Este país está no meio de uma guerra e, mesmo assim, as pessoas se manifestam todos os dias contra o governo”, argumenta. “A vitalidade da democracia israelense é uma das mais fortes que conheço.”
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Quem são as forças motrizes do antissemitismo moderno? Essa é a questão central de uma conferência de dois dias sobre antissemitismo em Jerusalém, organizada pelo Ministério israelense de Assuntos da Diáspora e que começou nesta quarta-feira (26/03).
O evento está, porém, no centro de muitas críticas, pois a lista de convidados inclui alguns dos principais nomes da direita radical na Europa. Estão convidados o líder do partido francês Reunião Nacional (RN), Jordan Bardella, a eurodeputada francesa Marion Maréchal (neta do líder histórico da extrema direita francesa, Jean-Marie Le Pen, morto recentemente), um político do partido húngaro Fidesz, de Viktor Orbán, e um eurodeputado do partido Democratas Suecos.
Também é esperada a presença do presidente da República de Srpska (uma das duas entidades políticas em que está dividida a Bósnia e Herzegovina, sendo a outra a Federação da Bósnia e Herzegovina), Milorad Dodik, considerado amigo do presidente russo, Vladimir Putin. O convidado especial da conferência é o presidente argentino, Javier Milei.
Além da agenda anti-islã, o que esses nomes têm em comum é a proximidade com o governo israelense. Eles serão recebidos pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e seu ministro para Assuntos da Diáspora, Amirchai Chikli.
Críticas à escolha dos convidados
O tom anti-islã fica evidente já no programa da conferência, onde consta o tema “como o islamismo radical alimenta o antissemitismo ocidental”, e na presença de nomes como a ativista somali-holandesa-americana Ayaan Hirsi Ali e vários outros críticos do islã.
Já a conexão entre extremismo de direita e antissemitismo não faz parte do programa do evento, apesar de pesquisadores do antissemitismo e organizações judaicas estarem há anos alertando para os riscos que a ascensão da direita radical em todo o mundo representa para a vida judaica.
Assim, não é de se estranhar que haja críticas à escolha dos participantes. “Quem organiza uma conferência contra antissemitismo não pode, ao mesmo tempo, convidar antissemitas que estão propagando o veneno do preconceito e do ódio”, afirma o advogado e jornalista alemão Michel Friedman à DW. Friedman foi presidente do Congresso Judaico Europeu (CJE) e membro da direção do Conselho Central dos Judeus na Alemanha.
“O governo Netanyahu está se tornando cada vez mais desinibido e busca coalizões que são intoleráveis. Sabe-se que os laços com Viktor Órban na Hungria também são importantes para ele. Este governo está se movendo cada vez mais na direção da extrema direita. Isso é muito perigoso para Israel”, diz Friedman.
Muitos convidados cancelaram participação
Muitos na Europa compartilham dessas críticas: vários convidados já cancelaram sua participação, entre eles o chefe da organização judaica americana Liga Antidifamação, Jonathan Greenblatt, filósofo francês Bernard-Henri Levy e três convidados de alto escalão da Alemanha.
“Meu motivo para recusar o convite foi que eu não queria participar de uma conferência, ou mesmo de um painel, com pessoas com as quais as comunidades judaicas na diáspora não mantêm qualquer contato”, afirmou o encarregado do governo alemão para a vida judaica e o antissemitismo, Felix Klein, à DW.
O presidente da Sociedade Teuto-Israelense (DIG), Volker Beck, também se recusou a participar. “Fiquei surpreso ao ver que quase exclusivamente parlamentares da extrema direita foram convidados para a conferência. Muitos desses partidos não respeitam a religião judaica em seus próprios países.”
Selo de kosher
No centro das críticas está o governo de Benjamin Netanyahu. “A conferência é um grande problema para as comunidades judaicas na Europa”, escreve Ariel Muzicant, presidente do Congresso Judaico Europeu, num artigo para o jornal israelense Jerusalem Post. “Os políticos da extrema direita não estão participando da conferência por amor a Israel ou para proteger os judeus, mas principalmente para obter o selo de kosher.”
No jornal alemão Süddeutsche Zeitung, o renomado professor de história e cultura judaica Michael Brenner, da Universidade Ludwig Maximilian de Munique, descreve a conferência como uma capitulação à extrema direita. “Entre as comunidades judaicas fora de Israel, que se sentem cada vez mais pressionadas por ataques verbais e físicos, cresce a disposição de ver as forças de extrema direita e antimuçulmanas como supostas aliadas na luta contra o terror”, analisa Brenner em artigo intitulado Esta conferência é uma vergonha. “Elas esquecem que esses extremistas de direita desprezam os muçulmanos apenas um pouco mais do que os judeus, que também estão na lista negra deles.”
Também em Israel há muitas críticas à conferência. Numa audiência perante o Comitê de Imigração e Integração do Knesset, representantes da diáspora judaica criticaram o governo israelense por não ter sido ouvido sobre os convites a políticos da direita radical. O Ministério dos Assuntos da Diáspora argumentou que havia convidado representantes de diversas correntes políticas.
Protestos contra Netanyahu
O ministério reiterou essa posição à DW. “O evento recebe convidados de diferentes países e de diferentes correntes políticas. Todos compartilham de um objetivo: a luta intransigente contra o antissemitismo e a deslegitimação de Israel.” O ministério ainda negou que tenha havido vários cancelamentos.
Israel passa há dias por uma onda de protestos contra o governo de Netanyahu, motivados pelos temores em relação aos reféns israelenses que ainda estão na Faixa de Gaza. Opositores do governo acusam Netanyahu de fracassar nas negociações pela libertação deles e também protestam contra a retomada dos combates na Faixa de Gaza.
Friedman diz que os protestos são um bom sinal. “Este país está no meio de uma guerra e, mesmo assim, as pessoas se manifestam todos os dias contra o governo”, argumenta. “A vitalidade da democracia israelense é uma das mais fortes que conheço.”
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