A Venezuela vive mais um capítulo de sua prolongada crise energética, com apagões que afetam a rotina de milhões e expõem a fragilidade de um sistema elétrico à beira do colapso. Na última segunda-feira, o regime de Nicolás Maduro anunciou a redução drástica da jornada de trabalho no setor público, de 40 para apenas 13,5 horas semanais, limitando o expediente a três dias, das 8h às 12h30. A medida, que entrou em vigor imediatamente, visa conter o consumo de energia em meio a falhas recorrentes no fornecimento, mas reacende o debate sobre as causas estruturais do problema. Enquanto o governo aponta o clima seco como culpado, especialistas destacam décadas de corrupção, negligência e falta de investimentos como os verdadeiros responsáveis pelo caos. A situação se agrava com a pressão externa: tarifas impostas pelo governo de Donald Trump sobre países que compram petróleo venezuelano ameaçam aprofundar o colapso econômico, levando empresas como a Chevron a abandonar o país.
Maduro justificou a decisão como uma resposta emergencial à seca que compromete o reservatório de Guri, coração da usina hidrelétrica Simón Bolívar, responsável por cerca de 80% da eletricidade nacional. Em cidades do interior, como Mérida, Táchira e Zulia, os apagões já duram até oito horas diárias, afetando desde residências até pequenos comércios. A população, acostumada a medidas paliativas, vê a redução da jornada como mais um sinal de deterioração, enquanto o bolívar despenca diante das sanções americanas, atingindo a cotação de 100 por dólar no mercado paralelo, contra 66 no início do ano.
Por outro lado, a narrativa oficial não convence os analistas. José Aguilar, especialista em energia, critica a insistência do regime em culpar fatores externos, como o clima ou supostas sabotagens, sem assumir a falta de manutenção no sistema elétrico. A usina de Guri, inaugurada na década de 1960, já foi um símbolo de modernização, mas hoje opera com capacidade reduzida, agravada por equipamentos obsoletos e ausência de reformas. A crise atual, iniciada em março, reflete um padrão: em 2019, um apagão deixou 80% do país no escuro por dias, e medidas similares de racionamento foram adotadas, sem resultados duradouros.
O impacto econômico das tarifas de Trump, anunciadas nesta semana, adiciona outra camada de dificuldade. A ordem executiva, assinada na segunda-feira, impõe uma taxa de 25% sobre países que negociem petróleo ou gás com a Venezuela, afetando diretamente a principal fonte de receita do regime. A estatal PDVSA, já debilitada, anunciou cortes de horário em seus escritórios administrativos, enquanto a Chevron recebeu um prazo de 60 dias para encerrar operações no país, um golpe que pode reduzir ainda mais o fluxo de dólares.
Raízes de um sistema em colapso
Décadas de dependência da hidrelétrica Simón Bolívar expuseram a vulnerabilidade da Venezuela a variações climáticas, mas o problema vai além da seca. Construída para gerar até 10 mil megawatts, a usina foi planejada como espinha dorsal de um país que buscava diversificar sua matriz energética na década de 1960. No entanto, a falta de investimento em fontes alternativas, como térmicas ou solares, deixou o sistema refém do reservatório de Guri, hoje em níveis críticos. A estiagem prolongada reduziu a capacidade de geração, mas a deterioração da infraestrutura é apontada como o fator decisivo para os apagões frequentes.
A corrupção também desempenha um papel central. Bilhões de dólares destinados à modernização do setor elétrico, especialmente durante o boom petrolífero dos anos 2000, desapareceram em esquemas envolvendo autoridades chavistas. Projetos de expansão, como a construção de novas turbinas em Guri, foram abandonados ou concluídos parcialmente, enquanto a manutenção básica foi negligenciada. O resultado é um sistema que opera no limite, incapaz de atender à demanda de uma população de cerca de 28 milhões de habitantes.
Enquanto isso, a população sente os efeitos diretos. Em estados como Barinas e Zulia, os cortes de energia são imprevisíveis, dificultando o planejamento de atividades básicas, como cozinhar ou trabalhar. Pequenos empresários relatam prejuízos com a paralisação de máquinas e a perda de produtos perecíveis, enquanto hospitais dependem de geradores precários para manter serviços essenciais. A exclusão do setor educacional do racionamento, devido à crise de professores, evidencia a fragilidade de um serviço público já combalido pelo êxodo de mais de 70% dos docentes.
Medidas paliativas e histórico de fracassos
A redução da jornada de trabalho não é novidade na Venezuela. Nos últimos 20 anos, o chavismo recorreu a estratégias semelhantes em momentos de crise energética, com resultados limitados. Em 2016, funcionários públicos trabalharam apenas dois dias por semana para economizar eletricidade, enquanto em 2019 a medida foi repetida após o apagão nacional. Em ambos os casos, a promessa de estabilização não se concretizou, e a qualidade de vida despencou, com filas para combustível e interrupções no abastecimento de água, que depende de bombas elétricas.
O plano atual, previsto para durar seis semanas, pode ser estendido caso a situação não melhore. A estatal Corpoelec, responsável pela distribuição, aplica racionamentos seletivos para evitar colapsos generalizados, mas a falta de transparência sobre os cortes gera frustração. Usuários nas redes sociais relatam interrupções que vão além do anunciado, com algumas áreas enfrentando até 14 horas sem luz. A ausência de um cronograma oficial alimenta a desconfiança em um governo que já perdeu credibilidade em promessas de recuperação.
A indústria e o comércio, que consomem volumes maiores de energia, foram poupados do racionamento, uma decisão que reflete a prioridade do regime em manter a economia mínima funcionando. No entanto, a saída de multinacionais como a Chevron, pressionada pelas tarifas americanas, ameaça essa estratégia. A empresa, que operava no país desde 2022 sob uma licença especial, exportava petróleo venezuelano para os Estados Unidos, mas agora se junta a outras gigantes que abandonaram o mercado local, como Exxon e Shell, nas últimas duas décadas.
Pressão internacional amplia a crise
A ofensiva de Donald Trump contra o regime de Maduro ganhou força nesta semana com a imposição de tarifas de 25% sobre nações que compram petróleo venezuelano. Anunciada em uma postagem na rede social Truth Social, a medida visa asfixiar economicamente o chavismo, acusado de fraudar as eleições de 2024 e resistir à deportação de migrantes. O impacto foi imediato: o bolívar perdeu valor no mercado paralelo, e a expectativa de escassez de dólares disparou, pressionando ainda mais a inflação, que já supera 50% ao ano.
A saída da Chevron, com prazo até maio para encerrar operações, marca um ponto de inflexão. A empresa americana era uma das últimas grandes operadoras estrangeiras no país, e sua retirada pode cortar as exportações de petróleo em até 20%, segundo analistas. A PDVSA, que já enfrenta sanções desde 2020, vê sua capacidade de atrair compradores diminuir, forçando descontos nos preços do crude e agravando a crise de divisas. Países como Índia e China, tradicionais importadores, agora hesitam diante do risco de represálias americanas.
A política de Trump reflete uma mudança de abordagem. Durante seu primeiro mandato, sanções diretas foram impostas à Venezuela, mas a nova estratégia de tarifas secundárias amplia o cerco, atingindo nações aliadas do regime. David Goldwyn, consultor de energia, observa que a medida equilibra a pressão sobre Maduro sem expulsar completamente empresas ocidentais, embora o custo para a população venezuelana seja inevitável. A queda na receita petrolífera, que representa 90% das exportações, dificulta a importação de bens básicos, como alimentos e medicamentos.
O peso da seca e da infraestrutura obsoleta
Embora o governo insista na seca como causa principal, o problema é estrutural. O reservatório de Guri, localizado no estado de Bolívar, opera com níveis alarmantes, mas a falta de diversificação energética agrava a dependência. Nos anos 1970, a usina foi projetada para atender a uma população menor e uma economia mais estável, mas hoje enfrenta demandas que superam sua capacidade. A ausência de usinas térmicas funcionais, muitas desativadas por falta de peças, deixa o país sem alternativas viáveis.
A construção do Guri, iniciada em 1960, foi um marco na história venezuelana, mas sua manutenção não acompanhou o crescimento populacional ou as mudanças climáticas. Nos últimos anos, estiagens prolongadas reduziram o volume de água disponível, mas a deterioração das turbinas e a falta de técnicos qualificados, muitos dos quais emigraram, impedem uma resposta eficaz. A estatal Edelca, que gerencia a usina, já admitiu dificuldades em importar componentes devido às sanções, mas críticos apontam que a crise precede as restrições externas.
Os apagões têm um efeito cascata. Em áreas rurais, a agricultura sofre com a interrupção de sistemas de irrigação, enquanto nas cidades o transporte público, já precário, para de funcionar sem eletricidade. A população recorre a geradores a diesel, mas o combustível é escasso e caro, com filas que chegam a durar dias nas bombas de gasolina. A combinação de crise energética e econômica transforma tarefas simples, como carregar um celular ou conservar alimentos, em desafios diários.

Cronograma da crise energética
A situação atual não é isolada, mas parte de uma sequência de eventos que marcaram as últimas décadas na Venezuela. Veja os principais marcos:
- 1960: Início da construção da usina hidrelétrica Simón Bolívar, no rio Caroní.
- 2000-2010: Boom petrolífero financia promessas de modernização elétrica, mas os recursos são desviados.
- 2016: Redução da jornada de trabalho para dois dias semanais devido à seca e falhas no Guri.
- 2019: Apagão nacional deixa 80% do país sem luz por dias; racionamento é adotado novamente.
- Março de 2025: Novo racionamento corta expediente público para 13,5 horas semanais.
Esse histórico revela a incapacidade do regime de encontrar soluções permanentes, enquanto a população se adapta a uma realidade de escassez crescente.
Efeitos sociais e econômicos imediatos
A redução da jornada pública afeta diretamente cerca de 2 milhões de funcionários, que agora trabalham menos de três dias por semana. Embora o salário, já irrisório, seja mantido, a medida reduz a produtividade em um setor essencial para serviços básicos, como saúde e administração. Hospitais relatam dificuldades para operar equipamentos críticos, enquanto escolas, já sem professores, enfrentam interrupções constantes nas aulas presenciais.
No setor privado, a incerteza energética desestimula investimentos. Pequenos negócios, como padarias e oficinas, operam em horários reduzidos, enquanto grandes indústrias, como a siderúrgica de Bolívar, sofrem com paralisações. A saída da Chevron agrava o cenário, pois a empresa injetava dólares na economia por meio de parcerias com a PDVSA. Sem essa receita, o governo terá menos recursos para importar bens, e a inflação, que já corroeu o poder de compra, deve acelerar.
A população reage com resignação e protestos discretos. Nas redes sociais, relatos de apagões prolongados dominam as discussões, com críticas à falta de planejamento e à propaganda oficial. Em cidades como Caracas, o uso de velas e lanternas voltou a ser comum, enquanto no interior a dependência de lenha para cozinhar reflete o retrocesso nas condições de vida.
Desafios à frente
Olhando para o futuro, a Venezuela enfrenta um dilema: recuperar o sistema elétrico exige investimentos bilionários que o país não possui. A receita do petróleo, principal fonte de financiamento, está comprometida pelas tarifas de Trump e pela saída de empresas estrangeiras. A possibilidade de aumentar a geração em Guri depende de chuvas, mas sem manutenção, o alívio seria temporário. Projetos de energia alternativa, como solar ou eólica, foram propostos no passado, mas nunca saíram do papel.
A pressão internacional também não dá sinais de alívio. As tarifas americanas podem forçar aliados de Maduro, como Rússia e Irã, a repensar seu apoio logístico, enquanto a China, maior credora da Venezuela, mantém cautela diante do risco econômico. Internamente, a oposição critica a gestão da crise, mas sem poder real para influenciar mudanças, resta à população lidar com as consequências de um sistema em frangalhos.
Os próximos meses serão decisivos. Se a seca persistir, os apagões podem se intensificar, e o racionamento, hoje restrito ao setor público, pode se estender à indústria e ao comércio. A saída da Chevron, prevista para maio, marcará o fim de uma era de parcerias estrangeiras no petróleo, enquanto o bolívar, em queda livre, reflete a desconfiança no futuro do país. Para os venezuelanos, a luta por energia é também uma luta por sobrevivência.
Curiosidades sobre a crise energética
A situação na Venezuela traz à tona aspectos peculiares de sua dependência elétrica:
- A usina Simón Bolívar já foi a maior do mundo em capacidade instalada na década de 1980.
- Cerca de 7,7 milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2015, muitos fugindo da crise energética e econômica.
- O consumo de eletricidade per capita caiu 40% desde 2010, refletindo a redução da atividade econômica.
- Geradores a diesel, comuns em residências, custam até dez vezes o salário mínimo mensal.
Esses dados mostram como a crise transcende a questão técnica, afetando todos os aspectos da vida no país.
