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3 Apr 2025, Thu

Greve dos entregadores pressiona iFood por reajustes e melhores condições de trabalho; acompanhe

Ifood


A paralisação nacional dos entregadores de aplicativos, iniciada nesta segunda-feira, 31 de março, colocou o iFood, líder no mercado de delivery no Brasil, no centro de uma disputa por melhores condições de trabalho. O movimento, batizado de “Breque Nacional dos Apps 2025”, reúne trabalhadores de diversas regiões do país em uma mobilização que se estende até terça-feira, 1º de abril. Com motociatas, carreatas e atos presenciais em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, os entregadores reivindicam aumento na taxa mínima por entrega, atualmente em R$ 6,50, para R$ 10,00, além de um reajuste no valor por quilômetro rodado, de R$ 1,50 para R$ 2,50. A empresa, que detém cerca de 80% do mercado de entregas por aplicativo, respondeu com um posicionamento que destaca o respeito ao direito de manifestação e sinaliza possíveis ajustes nas tarifas ainda este ano, mas sem compromissos firmes. A tensão entre trabalhadores e plataformas expõe um setor marcado por precariedade e lucros crescentes, reacendendo debates sobre a regulamentação do trabalho digital no país.

O iFood, em nota oficial, afirmou que mantém uma “agenda permanente de diálogo” com os entregadores e que está avaliando um aumento na taxa mínima de entrega para 2025, sem especificar valores ou prazos. A empresa também pediu que a paralisação ocorra de forma pacífica, sem prejudicar o funcionamento dos estabelecimentos parceiros ou a livre circulação da população. Enquanto isso, os trabalhadores argumentam que os custos operacionais, como gasolina, manutenção de motos e peças de bicicletas, dispararam nos últimos anos, tornando a remuneração atual insuficiente para uma vida digna. Em São Paulo, maior polo de motociclistas do Brasil, com mais de 700 mil profissionais segundo o SindimotoSP, a manifestação começou na Praça Charles Miller e seguiu até a Avenida Paulista, com faixas como “Nosso trampo vale mais”.

Organizado por entidades como a Aliança Nacional dos Entregadores por Aplicativos (Anea) e a Associação dos Motoboys, Motogirls e Entregadores de Juiz de Fora (Ammejuf), o movimento ganhou força nas redes sociais, com vídeos convocatórios alcançando milhões de visualizações. A data escolhida, que inclui o Dia da Mentira, foi estratégica: os entregadores querem “desmascarar as promessas vazias” das plataformas, segundo Junior Freitas, liderança do ato em São Paulo. Além do reajuste financeiro, a categoria exige limites de 3 km para rotas de bicicleta e pagamento integral por entrega em pedidos agrupados, medidas que visam reduzir a exaustão física e garantir maior equidade na remuneração.

Demandas centrais da paralisação ganham eco nacional

A mobilização dos entregadores reflete um descontentamento acumulado ao longo de anos. Entre 2022 e 2023, o iFood reajustou a taxa mínima de R$ 5,31 para R$ 6,50 e aumentou o valor por quilômetro rodado em 50%, passando de R$ 1,00 para R$ 1,50. Apesar disso, os trabalhadores afirmam que esses valores não acompanham a inflação ou o aumento dos custos de vida. Em 2024, a plataforma introduziu um adicional de R$ 3,00 para entregas agrupadas, mas a medida foi considerada insuficiente pela categoria, que pede o fim das reduções no pagamento quando múltiplos pedidos são realizados no mesmo trajeto.

As reivindicações incluem:

  • Aumento da taxa mínima de entrega para R$ 10,00.
  • Reajuste do valor por quilômetro rodado para R$ 2,50.
  • Limitação de rotas de bicicleta a 3 km por pedido.
  • Pagamento integral por entrega, sem cortes em pedidos agrupados.

Nicolas Souza Santos, da Anea, destacou que a precarização do trabalho força jornadas de até 13 horas diárias para alcançar uma renda mínima, comprometendo a manutenção dos veículos e a segurança dos entregadores. Dados do SindimotoSP mostram que as mortes de motociclistas em São Paulo cresceram 20% entre 2023 e 2024, evidenciando os riscos da profissão.

Histórico de tensões entre entregadores e plataformas

O embate entre entregadores e empresas de aplicativos não é novidade. Em 2020, o primeiro “Breque dos Apps” chamou a atenção para a precariedade do setor, com protestos em várias capitais. Naquele ano, a pandemia de covid-19 elevou a demanda por entregas e trouxe visibilidade à categoria, muitas vezes chamada de “heróis” por garantir o abastecimento durante o isolamento. No entanto, a valorização não se traduziu em melhores condições. Três anos depois, em 2023, outra paralisação nacional voltou a pressionar as plataformas, mas sem avanços significativos nas negociações.

A tentativa de regulamentação do trabalho por aplicativos, iniciada em maio de 2023 pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), também não prosperou. Após meses de debates com representantes de trabalhadores e empresas, como a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que reúne iFood, Uber e 99, o grupo de trabalho foi encerrado sem consenso. Um dos pontos de impasse foi a definição de “hora trabalhada”: enquanto os entregadores defendem a remuneração por todo o tempo logado no aplicativo, as empresas consideram apenas o período em deslocamento, oferecendo valores entre R$ 10,20 e R$ 12,00 para motociclistas e R$ 6,54 a R$ 7,00 para ciclistas.

Edgar Francisco da Silva, conhecido como Gringo, presidente da Associação dos Motofretistas de Aplicativos e Autônomos do Brasil (Amabr), criticou a falta de suporte das plataformas. Ele aponta que os entregadores arcam sozinhos com os custos de motos, capacetes, celulares e manutenção, ficando com cerca de metade da renda bruta após despesas. “Se ganho R$ 3 mil, fico com R$ 1.500, porque o resto vai para gasolina e consertos”, relatou.

Resposta do iFood reflete cautela e promessas

Diante da pressão, o iFood adotou um tom conciliador, mas sem compromissos concretos. A empresa afirmou que o ganho bruto por hora trabalhada na plataforma é de R$ 31,33, valor quatro vezes superior ao salário mínimo-hora nacional, segundo estudo do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Além disso, destacou benefícios como seguro pessoal gratuito para acidentes durante entregas, planos de saúde, programas educacionais e suporte jurídico e psicológico para casos de assédio ou discriminação. A Amobitec reforçou que a renda média dos entregadores cresceu 5% acima da inflação entre 2023 e 2024, mas os trabalhadores contestam que esses números não refletem a realidade de quem depende exclusivamente do aplicativo.

A cautela da empresa também se manifesta na solicitação para que os protestos não interfiram nos parceiros comerciais. Em São Paulo, onde 60% dos pedidos no iFood são entregues por frotas dos próprios restaurantes, a paralisação teve impacto limitado nas operações, segundo a companhia. No entanto, consumidores relataram atrasos de até duas horas em algumas regiões, com lojas fechadas no aplicativo e fretes mais caros, evidenciando os reflexos da mobilização.

Mobilização cresce em dezenas de cidades

A adesão ao “Breque Nacional dos Apps 2025” alcançou pelo menos 59 cidades, incluindo capitais como Salvador, Fortaleza, Porto Alegre e Recife. Em Santa Catarina, 15 municípios participam, enquanto no Rio de Janeiro e em Minas Gerais os atos também ganharam força. A organização descentralizada, liderada por coletivos de entregadores e sindicatos, dificulta a medição exata do número de participantes, mas o engajamento nas redes sociais sugere um movimento robusto. “Esse será o maior breque da história”, afirmou Nicolas Souza Santos, da Anea, apontando o aumento da indignação com a exploração das plataformas.

Em São Paulo, a motociata saiu do Pacaembu rumo à sede do iFood, em Osasco, com centenas de motocicletas e caminhões de som. Faixas como “Lucro do iFood cresce, nossa dignidade desaparece” resumem o sentimento da categoria. A escolha do 1º de abril como data final da paralisação reforça a crítica às promessas não cumpridas pelas empresas, que, segundo os trabalhadores, lucram bilhões enquanto os entregadores enfrentam condições cada vez mais adversas.

Reivindicações expõem desafios do setor

As demandas dos entregadores vão além do aumento salarial. A limitação de rotas de bicicleta a 3 km busca proteger os ciclistas da exaustão física, especialmente em cidades com relevo acidentado ou trânsito intenso. Já o pagamento integral por entrega em pedidos agrupados visa corrigir uma prática que, na visão da categoria, reduz os ganhos sem compensação justa. “Não dá para pedalar ou rodar de graça enquanto as empresas faturam alto”, diz um vídeo de convocação que circula nas redes, destacando que o custo de vida subiu muito mais que as tarifas pagas.

A precariedade do trabalho por aplicativos é um tema recorrente. Pesquisa do Cebrap estima que o Brasil tenha 386 mil entregadores de plataformas, majoritariamente homens com menos de 30 anos. Muitos dependem exclusivamente dessa renda, enfrentando longas jornadas e riscos diários. A falta de direitos trabalhistas, como férias, 13º salário ou aposentadoria, agrava a vulnerabilidade da categoria, que cobra do poder público uma regulamentação mais efetiva.

Calendário do “Breque Nacional dos Apps 2025”

O movimento segue um cronograma definido:

  • 31 de março: Início da paralisação com atos em praças e avenidas principais.
  • 1º de abril: Encerramento da greve com motociatas e protestos em frente a sedes de empresas.
  • Após a greve: Entrega de denúncias de práticas antissindicais às autoridades competentes.

Os organizadores planejam manter a pressão mesmo após o fim da paralisação, com abaixo-assinados e novas mobilizações caso as demandas não sejam atendidas. A expectativa é que o iFood e outras plataformas, como Uber Flash e 99 Entrega, apresentem propostas concretas nos próximos meses.

Lucro das empresas contrasta com realidade dos trabalhadores

Enquanto os entregadores lutam por sobrevivência, as plataformas registram números expressivos. O iFood espera um crescimento de mais de 50% na receita de sua divisão financeira em 2025, alcançando R$ 1 bilhão, conforme projeções recentes. A Uber, dona do Uber Eats, reportou uma receita global de US$ 11,96 bilhões em 2024, equivalente a cerca de R$ 6,77 trilhões na cotação atual. Esses lucros contrastam com a realidade de trabalhadores que, segundo lideranças como Junior Freitas, “derramam sangue nas ruas” para sustentar o modelo de negócio das empresas.

A categoria também denuncia práticas antissindicais, como bônus oferecidos para desmobilizar greves ou bloqueios de contas de entregadores engajados em protestos. Em 2023, o iFood assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para cessar ações contra movimentos sindicais, após investigações apontarem monitoramento de grupos e interferência em organizações trabalhistas. Apesar disso, os entregadores afirmam que a repressão sutil persiste.

Impactos da greve no dia a dia das cidades

A paralisação afetou diretamente o funcionamento dos serviços de delivery. Em grandes centros urbanos, consumidores relataram dificuldades para realizar pedidos, com tempos de espera elevados e muitas lojas indisponíveis nos aplicativos. “Logo hoje que precisei pedir almoço, os entregadores estão de greve”, escreveu um usuário nas redes sociais. Em resposta, o iFood informou que 60% de seus pedidos são entregues por frotas próprias dos restaurantes, o que teria minimizado o impacto nas operações.

A mobilização também reacendeu o debate sobre o papel do governo na regulamentação do setor. O SindimotoSP criticou a inação do governo federal, que, após dois anos de mandato, não apresentou soluções efetivas para a precarização dos entregadores. “São gerações inteiras morrendo nas ruas ou ficando com sequelas”, afirmou a entidade, cobrando medidas como descanso remunerado e cobertura para acidentes.

Diálogo entre partes segue como desafio

O iFood reiterou que mantém canais abertos para negociação e que trabalha para melhorar os ganhos e o dia a dia dos entregadores. A Amobitec, por sua vez, defendeu que as empresas buscam equilibrar as demandas dos trabalhadores com a situação econômica dos usuários, que dependem de serviços acessíveis. No entanto, os entregadores veem essas declarações como insuficientes, exigindo ações práticas em vez de promessas.

A falta de acordo em 2023, durante as negociações mediadas pelo MTE, evidenciou a dificuldade de conciliar interesses opostos. Enquanto as plataformas defendem a flexibilidade do modelo autônomo, os trabalhadores argumentam que essa “autonomia” é fictícia, já que não podem definir o preço de seu trabalho nem contar com garantias mínimas. “Foi prometida liberdade, mas nunca entregue”, disse Nicolas Souza Santos, ecoando o sentimento de frustração da categoria.

Riscos e condições extremas marcam a rotina

Trabalhar como entregador por aplicativo é uma atividade de alto risco. Além do aumento nas mortes de motociclistas, os acidentes deixam milhares de trabalhadores com sequelas físicas todos os anos. A pressão por entregas rápidas, aliada ao trânsito caótico das grandes cidades, eleva a vulnerabilidade da categoria. Para os ciclistas, a situação é ainda mais delicada, com rotas longas e falta de infraestrutura adequada nas vias urbanas.

A exaustão também é um fator crítico. Muitos entregadores relatam pedalar ou pilotar por mais de 12 horas diárias, enfrentando chuva, calor intenso e assédio no trânsito. “Não dá para sustentar a família com o que pagam hoje”, disse um trabalhador em vídeo divulgado nas redes. A limitação de rotas para bicicletas é vista como uma medida essencial para reduzir esses impactos, mas o iFood argumenta que novas restrições podem diminuir a oferta de trabalho para os ciclistas.

Benefícios oferecidos não convencem a categoria

O iFood destaca uma série de benefícios para os entregadores, como:

  • Seguro contra acidentes durante as entregas.
  • Planos de saúde e odontológicos acessíveis.
  • Suporte jurídico e psicológico em casos de discriminação.
  • Programas educacionais para capacitação profissional.

Apesar disso, os trabalhadores afirmam que essas iniciativas não resolvem os problemas estruturais do setor, como a baixa remuneração e a ausência de direitos trabalhistas básicos. “É um paliativo, não uma solução”, declarou Gringo, da Amabr, reforçando que a categoria busca dignidade e estabilidade, não apenas auxílios pontuais.

Pressão por mudanças estruturais aumenta

A greve de 31 de março e 1º de abril marca um novo capítulo na luta dos entregadores por reconhecimento. Com adesão em dezenas de cidades e apoio de sindicatos e movimentos sociais, o “Breque Nacional dos Apps 2025” evidencia a insatisfação com um modelo de trabalho que, para muitos, beira a “escravidão moderna”. As faixas exibidas nos protestos, como “Três anos sem reajuste, enquanto o combustível dispara”, resumem a urgência das demandas.

O movimento também pressiona o governo federal a retomar as discussões sobre regulamentação. A promessa de “dignidade” feita pelo presidente Lula em 2023, durante o programa Conversa com o Presidente, ainda não se concretizou, frustrando expectativas. A Coalizão Global pelo Trabalho, assinada com Joe Biden em setembro daquele ano, defendeu garantias aos trabalhadores por aplicativo, mas os avanços práticos seguem lentos.

A resposta do iFood, embora sinalize diálogo, não apaziguou os ânimos. A empresa avalia um reajuste para 2025, mas os entregadores exigem ações imediatas. “Se não tem reajuste, não tem entrega”, diz o lema da mobilização, que planeja encaminhar denúncias de práticas antissindicais às autoridades após a paralisação, mantendo a pressão sobre as plataformas e o poder público.







A paralisação nacional dos entregadores de aplicativos, iniciada nesta segunda-feira, 31 de março, colocou o iFood, líder no mercado de delivery no Brasil, no centro de uma disputa por melhores condições de trabalho. O movimento, batizado de “Breque Nacional dos Apps 2025”, reúne trabalhadores de diversas regiões do país em uma mobilização que se estende até terça-feira, 1º de abril. Com motociatas, carreatas e atos presenciais em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, os entregadores reivindicam aumento na taxa mínima por entrega, atualmente em R$ 6,50, para R$ 10,00, além de um reajuste no valor por quilômetro rodado, de R$ 1,50 para R$ 2,50. A empresa, que detém cerca de 80% do mercado de entregas por aplicativo, respondeu com um posicionamento que destaca o respeito ao direito de manifestação e sinaliza possíveis ajustes nas tarifas ainda este ano, mas sem compromissos firmes. A tensão entre trabalhadores e plataformas expõe um setor marcado por precariedade e lucros crescentes, reacendendo debates sobre a regulamentação do trabalho digital no país.

O iFood, em nota oficial, afirmou que mantém uma “agenda permanente de diálogo” com os entregadores e que está avaliando um aumento na taxa mínima de entrega para 2025, sem especificar valores ou prazos. A empresa também pediu que a paralisação ocorra de forma pacífica, sem prejudicar o funcionamento dos estabelecimentos parceiros ou a livre circulação da população. Enquanto isso, os trabalhadores argumentam que os custos operacionais, como gasolina, manutenção de motos e peças de bicicletas, dispararam nos últimos anos, tornando a remuneração atual insuficiente para uma vida digna. Em São Paulo, maior polo de motociclistas do Brasil, com mais de 700 mil profissionais segundo o SindimotoSP, a manifestação começou na Praça Charles Miller e seguiu até a Avenida Paulista, com faixas como “Nosso trampo vale mais”.

Organizado por entidades como a Aliança Nacional dos Entregadores por Aplicativos (Anea) e a Associação dos Motoboys, Motogirls e Entregadores de Juiz de Fora (Ammejuf), o movimento ganhou força nas redes sociais, com vídeos convocatórios alcançando milhões de visualizações. A data escolhida, que inclui o Dia da Mentira, foi estratégica: os entregadores querem “desmascarar as promessas vazias” das plataformas, segundo Junior Freitas, liderança do ato em São Paulo. Além do reajuste financeiro, a categoria exige limites de 3 km para rotas de bicicleta e pagamento integral por entrega em pedidos agrupados, medidas que visam reduzir a exaustão física e garantir maior equidade na remuneração.

Demandas centrais da paralisação ganham eco nacional

A mobilização dos entregadores reflete um descontentamento acumulado ao longo de anos. Entre 2022 e 2023, o iFood reajustou a taxa mínima de R$ 5,31 para R$ 6,50 e aumentou o valor por quilômetro rodado em 50%, passando de R$ 1,00 para R$ 1,50. Apesar disso, os trabalhadores afirmam que esses valores não acompanham a inflação ou o aumento dos custos de vida. Em 2024, a plataforma introduziu um adicional de R$ 3,00 para entregas agrupadas, mas a medida foi considerada insuficiente pela categoria, que pede o fim das reduções no pagamento quando múltiplos pedidos são realizados no mesmo trajeto.

As reivindicações incluem:

  • Aumento da taxa mínima de entrega para R$ 10,00.
  • Reajuste do valor por quilômetro rodado para R$ 2,50.
  • Limitação de rotas de bicicleta a 3 km por pedido.
  • Pagamento integral por entrega, sem cortes em pedidos agrupados.

Nicolas Souza Santos, da Anea, destacou que a precarização do trabalho força jornadas de até 13 horas diárias para alcançar uma renda mínima, comprometendo a manutenção dos veículos e a segurança dos entregadores. Dados do SindimotoSP mostram que as mortes de motociclistas em São Paulo cresceram 20% entre 2023 e 2024, evidenciando os riscos da profissão.

Histórico de tensões entre entregadores e plataformas

O embate entre entregadores e empresas de aplicativos não é novidade. Em 2020, o primeiro “Breque dos Apps” chamou a atenção para a precariedade do setor, com protestos em várias capitais. Naquele ano, a pandemia de covid-19 elevou a demanda por entregas e trouxe visibilidade à categoria, muitas vezes chamada de “heróis” por garantir o abastecimento durante o isolamento. No entanto, a valorização não se traduziu em melhores condições. Três anos depois, em 2023, outra paralisação nacional voltou a pressionar as plataformas, mas sem avanços significativos nas negociações.

A tentativa de regulamentação do trabalho por aplicativos, iniciada em maio de 2023 pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), também não prosperou. Após meses de debates com representantes de trabalhadores e empresas, como a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que reúne iFood, Uber e 99, o grupo de trabalho foi encerrado sem consenso. Um dos pontos de impasse foi a definição de “hora trabalhada”: enquanto os entregadores defendem a remuneração por todo o tempo logado no aplicativo, as empresas consideram apenas o período em deslocamento, oferecendo valores entre R$ 10,20 e R$ 12,00 para motociclistas e R$ 6,54 a R$ 7,00 para ciclistas.

Edgar Francisco da Silva, conhecido como Gringo, presidente da Associação dos Motofretistas de Aplicativos e Autônomos do Brasil (Amabr), criticou a falta de suporte das plataformas. Ele aponta que os entregadores arcam sozinhos com os custos de motos, capacetes, celulares e manutenção, ficando com cerca de metade da renda bruta após despesas. “Se ganho R$ 3 mil, fico com R$ 1.500, porque o resto vai para gasolina e consertos”, relatou.

Resposta do iFood reflete cautela e promessas

Diante da pressão, o iFood adotou um tom conciliador, mas sem compromissos concretos. A empresa afirmou que o ganho bruto por hora trabalhada na plataforma é de R$ 31,33, valor quatro vezes superior ao salário mínimo-hora nacional, segundo estudo do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Além disso, destacou benefícios como seguro pessoal gratuito para acidentes durante entregas, planos de saúde, programas educacionais e suporte jurídico e psicológico para casos de assédio ou discriminação. A Amobitec reforçou que a renda média dos entregadores cresceu 5% acima da inflação entre 2023 e 2024, mas os trabalhadores contestam que esses números não refletem a realidade de quem depende exclusivamente do aplicativo.

A cautela da empresa também se manifesta na solicitação para que os protestos não interfiram nos parceiros comerciais. Em São Paulo, onde 60% dos pedidos no iFood são entregues por frotas dos próprios restaurantes, a paralisação teve impacto limitado nas operações, segundo a companhia. No entanto, consumidores relataram atrasos de até duas horas em algumas regiões, com lojas fechadas no aplicativo e fretes mais caros, evidenciando os reflexos da mobilização.

Mobilização cresce em dezenas de cidades

A adesão ao “Breque Nacional dos Apps 2025” alcançou pelo menos 59 cidades, incluindo capitais como Salvador, Fortaleza, Porto Alegre e Recife. Em Santa Catarina, 15 municípios participam, enquanto no Rio de Janeiro e em Minas Gerais os atos também ganharam força. A organização descentralizada, liderada por coletivos de entregadores e sindicatos, dificulta a medição exata do número de participantes, mas o engajamento nas redes sociais sugere um movimento robusto. “Esse será o maior breque da história”, afirmou Nicolas Souza Santos, da Anea, apontando o aumento da indignação com a exploração das plataformas.

Em São Paulo, a motociata saiu do Pacaembu rumo à sede do iFood, em Osasco, com centenas de motocicletas e caminhões de som. Faixas como “Lucro do iFood cresce, nossa dignidade desaparece” resumem o sentimento da categoria. A escolha do 1º de abril como data final da paralisação reforça a crítica às promessas não cumpridas pelas empresas, que, segundo os trabalhadores, lucram bilhões enquanto os entregadores enfrentam condições cada vez mais adversas.

Reivindicações expõem desafios do setor

As demandas dos entregadores vão além do aumento salarial. A limitação de rotas de bicicleta a 3 km busca proteger os ciclistas da exaustão física, especialmente em cidades com relevo acidentado ou trânsito intenso. Já o pagamento integral por entrega em pedidos agrupados visa corrigir uma prática que, na visão da categoria, reduz os ganhos sem compensação justa. “Não dá para pedalar ou rodar de graça enquanto as empresas faturam alto”, diz um vídeo de convocação que circula nas redes, destacando que o custo de vida subiu muito mais que as tarifas pagas.

A precariedade do trabalho por aplicativos é um tema recorrente. Pesquisa do Cebrap estima que o Brasil tenha 386 mil entregadores de plataformas, majoritariamente homens com menos de 30 anos. Muitos dependem exclusivamente dessa renda, enfrentando longas jornadas e riscos diários. A falta de direitos trabalhistas, como férias, 13º salário ou aposentadoria, agrava a vulnerabilidade da categoria, que cobra do poder público uma regulamentação mais efetiva.

Calendário do “Breque Nacional dos Apps 2025”

O movimento segue um cronograma definido:

  • 31 de março: Início da paralisação com atos em praças e avenidas principais.
  • 1º de abril: Encerramento da greve com motociatas e protestos em frente a sedes de empresas.
  • Após a greve: Entrega de denúncias de práticas antissindicais às autoridades competentes.

Os organizadores planejam manter a pressão mesmo após o fim da paralisação, com abaixo-assinados e novas mobilizações caso as demandas não sejam atendidas. A expectativa é que o iFood e outras plataformas, como Uber Flash e 99 Entrega, apresentem propostas concretas nos próximos meses.

Lucro das empresas contrasta com realidade dos trabalhadores

Enquanto os entregadores lutam por sobrevivência, as plataformas registram números expressivos. O iFood espera um crescimento de mais de 50% na receita de sua divisão financeira em 2025, alcançando R$ 1 bilhão, conforme projeções recentes. A Uber, dona do Uber Eats, reportou uma receita global de US$ 11,96 bilhões em 2024, equivalente a cerca de R$ 6,77 trilhões na cotação atual. Esses lucros contrastam com a realidade de trabalhadores que, segundo lideranças como Junior Freitas, “derramam sangue nas ruas” para sustentar o modelo de negócio das empresas.

A categoria também denuncia práticas antissindicais, como bônus oferecidos para desmobilizar greves ou bloqueios de contas de entregadores engajados em protestos. Em 2023, o iFood assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para cessar ações contra movimentos sindicais, após investigações apontarem monitoramento de grupos e interferência em organizações trabalhistas. Apesar disso, os entregadores afirmam que a repressão sutil persiste.

Impactos da greve no dia a dia das cidades

A paralisação afetou diretamente o funcionamento dos serviços de delivery. Em grandes centros urbanos, consumidores relataram dificuldades para realizar pedidos, com tempos de espera elevados e muitas lojas indisponíveis nos aplicativos. “Logo hoje que precisei pedir almoço, os entregadores estão de greve”, escreveu um usuário nas redes sociais. Em resposta, o iFood informou que 60% de seus pedidos são entregues por frotas próprias dos restaurantes, o que teria minimizado o impacto nas operações.

A mobilização também reacendeu o debate sobre o papel do governo na regulamentação do setor. O SindimotoSP criticou a inação do governo federal, que, após dois anos de mandato, não apresentou soluções efetivas para a precarização dos entregadores. “São gerações inteiras morrendo nas ruas ou ficando com sequelas”, afirmou a entidade, cobrando medidas como descanso remunerado e cobertura para acidentes.

Diálogo entre partes segue como desafio

O iFood reiterou que mantém canais abertos para negociação e que trabalha para melhorar os ganhos e o dia a dia dos entregadores. A Amobitec, por sua vez, defendeu que as empresas buscam equilibrar as demandas dos trabalhadores com a situação econômica dos usuários, que dependem de serviços acessíveis. No entanto, os entregadores veem essas declarações como insuficientes, exigindo ações práticas em vez de promessas.

A falta de acordo em 2023, durante as negociações mediadas pelo MTE, evidenciou a dificuldade de conciliar interesses opostos. Enquanto as plataformas defendem a flexibilidade do modelo autônomo, os trabalhadores argumentam que essa “autonomia” é fictícia, já que não podem definir o preço de seu trabalho nem contar com garantias mínimas. “Foi prometida liberdade, mas nunca entregue”, disse Nicolas Souza Santos, ecoando o sentimento de frustração da categoria.

Riscos e condições extremas marcam a rotina

Trabalhar como entregador por aplicativo é uma atividade de alto risco. Além do aumento nas mortes de motociclistas, os acidentes deixam milhares de trabalhadores com sequelas físicas todos os anos. A pressão por entregas rápidas, aliada ao trânsito caótico das grandes cidades, eleva a vulnerabilidade da categoria. Para os ciclistas, a situação é ainda mais delicada, com rotas longas e falta de infraestrutura adequada nas vias urbanas.

A exaustão também é um fator crítico. Muitos entregadores relatam pedalar ou pilotar por mais de 12 horas diárias, enfrentando chuva, calor intenso e assédio no trânsito. “Não dá para sustentar a família com o que pagam hoje”, disse um trabalhador em vídeo divulgado nas redes. A limitação de rotas para bicicletas é vista como uma medida essencial para reduzir esses impactos, mas o iFood argumenta que novas restrições podem diminuir a oferta de trabalho para os ciclistas.

Benefícios oferecidos não convencem a categoria

O iFood destaca uma série de benefícios para os entregadores, como:

  • Seguro contra acidentes durante as entregas.
  • Planos de saúde e odontológicos acessíveis.
  • Suporte jurídico e psicológico em casos de discriminação.
  • Programas educacionais para capacitação profissional.

Apesar disso, os trabalhadores afirmam que essas iniciativas não resolvem os problemas estruturais do setor, como a baixa remuneração e a ausência de direitos trabalhistas básicos. “É um paliativo, não uma solução”, declarou Gringo, da Amabr, reforçando que a categoria busca dignidade e estabilidade, não apenas auxílios pontuais.

Pressão por mudanças estruturais aumenta

A greve de 31 de março e 1º de abril marca um novo capítulo na luta dos entregadores por reconhecimento. Com adesão em dezenas de cidades e apoio de sindicatos e movimentos sociais, o “Breque Nacional dos Apps 2025” evidencia a insatisfação com um modelo de trabalho que, para muitos, beira a “escravidão moderna”. As faixas exibidas nos protestos, como “Três anos sem reajuste, enquanto o combustível dispara”, resumem a urgência das demandas.

O movimento também pressiona o governo federal a retomar as discussões sobre regulamentação. A promessa de “dignidade” feita pelo presidente Lula em 2023, durante o programa Conversa com o Presidente, ainda não se concretizou, frustrando expectativas. A Coalizão Global pelo Trabalho, assinada com Joe Biden em setembro daquele ano, defendeu garantias aos trabalhadores por aplicativo, mas os avanços práticos seguem lentos.

A resposta do iFood, embora sinalize diálogo, não apaziguou os ânimos. A empresa avalia um reajuste para 2025, mas os entregadores exigem ações imediatas. “Se não tem reajuste, não tem entrega”, diz o lema da mobilização, que planeja encaminhar denúncias de práticas antissindicais às autoridades após a paralisação, mantendo a pressão sobre as plataformas e o poder público.







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