Ana Paula Cadamuro, de São Paulo, que é dubladora de um programa infantil, conta que sente gostos e cheiros terríveis desde que desenvolveu parosmia, caracterizada pela distorção do olfato. “Eu perdi completamente o prazer de comer, hoje eu como só para não morrer”, disse, em entrevista a CRESCER. Conheça a história e saiba mais sobre a condição! Já imaginou sentir gosto de chorume ao comer um pedaço de frango? Ou o cheiro de pamonha ao abrir um amaciante? É isso que acontece com Ana Paula Cadamuro, 31, dubladora do programa infantil “Shasha e Milo”, de São Paulo, após contrair covid-19 em 2020. Ela desenvolveu uma condição chamada parosmia, caracterizada pela distorção do olfato. Geralmente, dura apenas algumas semanas ou meses e desaparece sozinha, mas esse não foi o caso de Ana Paula que, há cinco anos, convive com o problema.
Em vídeo viral, ela contou mais sobre a sua experiência com a condição. “Em 2020, eu tive covid. Depois de longos três meses sem olfato e paladar, eu desenvolvi uma condição chamada parosmia. Nada mais é do que os meus ‘divertida mentes’ em pânico correndo de um lado para o outro, plugando cabo onde não tem que plugar e todos os cheiros e gostos estão trocados na minha cabeça”, explica.
Mas não é só isso, a dubladora sente cheiros e gostos terríveis em tudo. “Eu sinto cheiro de podre, de estragado, de carniça e tudo isso vem acompanhado do gosto também. Desesperador! Para facilitar a vida, eu sempre explico para as pessoas que eu estou ‘daltônica do nariz'”, afirma.
Ana Paula é dubladora
Arquivo pessoal
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Para exemplificar, Ana Paula conta que frango tem gosto de chorume para ela, o amaciante de roupas tem cheiro de pamonha, o sabonete do rosto tem cheiro de pastel fritando e alguns produtos de limpeza tem cheiro de manteiga de pipoca do cinema. Creme de avelã tem gosto de uva, que ela odeia. Além disso, alguns shampoos, sabonetes e desodorantes tem cheiro de suor para ela.
“Para a sorte do meu marido, eu não sinto cheiro de pum, cocô, xixi, nada que se faça dentro do banheiro. Logo, ele pode peidar à vontade do meu lado e eu nunca vou saber. Nosso casamento nunca vai acabar”, brinca. No entanto, ir para um restaurante se tornou um pesadelo, pois cebola e alho tem gosto de carniça.
Repercussão na web
O vídeo viralizou, alcançando mais de 1 milhão de visualização e impressionando os internautas. Ana Paula nunca imaginou que a gravação chegaria a tanta gente. “O intuito não era viralizar, o intuito era encontrar outras pessoas que estejam passando por isso e que eu possa ajudar, porque quando começou a parosmia, eu simplesmente não encontrei ninguém. Era uma coisa muito difícil”, diz em entrevista à CRESCER.
A dubladora já conseguiu ajudar muitas pessoas que receberam o mesmo diagnóstico, o que a deixa muito contente. “Teve um caso que me chamou muita atenção que foi de uma mãe que o filho dela está com esse problema da parosmia. A pior parte é que ele tem também um problema nos rins e já tinha uma alimentação restrita. Agora, piorou tudo. Ela estava desesperada, porque ele não estava conseguindo comer, ele só passava mal, só vomitava. Eu fiz uma lista para ela do que eu comia nessa época, porque eu meio que passo por períodos, por exemplo, nos primeiros meses eu conseguia comer tal coisa. Eu tinha quase que um diário para que ficasse um pouco mais fácil para encontrar coisas similares para eu conseguir comer”, explica.
A ajuda de Ana Paula foi muito útil para essa mãe. “Foi um dia absurdamente incrível quando ela me mandou mensagem falando: ‘Ana, ele conseguiu comer’. Confesso que chorei. Fiquei muito feliz, porque eu conclui o meu objetivo”, diz. “Não gosto de dar esperança [de que a parosmia suma], mas também existe vida com parosmia, por pior que seja. Eu vou dando um jeito e a gente vai encontrando pessoas no caminho que ajudam a gente a lidar com tudo isso”, acrescenta.
“Além de não ter recuperado o olfato, sinto cheiro constante de cigarro”, relata gestante que teve covid
Tudo começou com a covid
A dubladora contraiu covid em junho de 2020, no início da pandemia. “Eu tive sintomas super leves! Tive muito cansaço e perdi totalmente olfato e paladar, mas fora isso, não senti mais nada”, afirma. Os sintomas da parosmia começaram em outubro daquele ano. “Cheguei em casa após o trabalho e fui fritar nuggets pra jantar. Depois que fritei, achei que eles estavam fora da validade, porque o cheiro estava totalmente insuportável, era cheiro de estragado mesmo. Depois disso, comecei a notar que todos os cheiros estavam terríveis e o gosto estava tão ruim quanto”, afirma.
Em novembro, os cheiros e gostos ruins não foram embora, por isso, ela decidiu procurar um médico para investigar o que estava acontecendo. Mas foi um longo caminho até ser diagnosticada. “Fui em cinco otorrinos e todos eles disseram que eu estava alucinando e que devia procurar um psiquiatra. Mas eu não estava convencida, então, fui atrás de artigos científicos publicados na Internet e descobri o que eu tinha”, diz.
Com a confirmação médica, ela foi diagnosticada com parosmia. “Uma parte de mim estava aliviada porque eu de fato não estava alucinando, mas outra parte estava muito preocupada, porque isso significava que o meu sistema nervoso tinha sido danificado por conta da covid”, lembra. A preocupação aumentou ainda mais quando descobriu que não tinha remédio, o corpo tem que se regenerar sozinho.
A parosmia afetou muito seu dia a dia. “Eu diria que acabou com a minha vida. Eu perdi completamente o prazer de comer, hoje eu como só para não morrer. Além disso, eu não tenho mais prazer em sentir cheiros bons e isso também é muito traumático. Perder dois prazeres grandes na vida me trouxeram depressão, ansiedade, crises de pânico, agorafobia [medo intenso de lugares públicos] e muitas outras coisas com as quais eu convivo diariamente”, lamenta.
“Além disso, é uma situação muito solitária. Você pode contar para as pessoas o que sente, mas raramente você vai ter alguém que entenda perfeitamente o que é isso, porque de fato você só entende quando vive”, adiciona.
Terapias
Embora não exista um remédio para tratar a condição, Ana Paula seguiu buscando maneiras de aliviar os sintomas. “Junto com a minha psiquiatra, tentamos muitas coisas, mas não tivemos sucesso. Todos os medicamentos eram tentativas e não havia nada que comprovadamente pudesse ajudar”, explica.
Em 2022, ela chegou a participar de uma pesquisa que fazia parte do Mestrado pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) durante quatro meses. Os pesquisadores estudaram 200 pessoas com sequelas graves de covid e tentaram ajudar com um tratamento não medicamentoso.
“Eu saí de lá com 35% do olfato funcionando e só conseguia identificar os cheiros de manjericão, canela e mel. Hoje eu só consigo identificar manjericão, acabei perdendo os outros cheiros. Mas durante a pesquisa, nós fizemos o treinamento olfativo com essências de cheiros conhecidos do nosso dia a dia, em especial de comidas”, afirma.
Covid-19 pode fazer com que crianças tenham dificuldade de comer bem
Infelizmente, não há expectativa que o olfato e o paladar de Ana Paula voltem ao normal. Até hoje os cheiros e gostos ruins ainda a incomodam. “Mas eu entendi que se eu não passasse a conviver melhor com esses cheiros, eu não iria sobreviver. Hoje eu trato minha alimentação como uma introdução alimentar de neném mesmo. Tento fingir que não sei que aquele cheiro e gosto não é o real e tento ver o que eu consigo pelo menos suportar. Não é fácil, mas depois de quase cinco anos, a gente acaba tendo que lidar de alguma forma”, finaliza.
O que é parosmia?
Parosmia é uma disfunção olfatória caracterizada por uma distorção do olfato. É diferente da anosmia, que é a perda completa do olfato, ou da hiposmia, que é a perda parcial do olfato. Pessoas com parosmia percebem odores normais de forma distorcida na maioria das vezes como desagradáveis, descritos como cheiro de queimado, podre ou químico.
O diagnóstico é feito por um otorrinolaringologista, que pode utilizar testes olfatórios para avaliar a extensão da disfunção. Além disso, exames de imagem, principalmente a ressonância magnética deve ser solicitada para descartar outras causas.
Parosmia x covid
A parosmia pode ocorrer após a covid-19 devido ao dano causado pelo vírus às células olfatórias presentes no nariz, que são responsáveis pela captação dos odores. Além de toda a infecção de via aérea superior levar a um edema da mucosa nasal e, com isso, acarretar uma hiposmia, uma vez que devido ao edema menos particulas chegarão ao local do nariz onde o nervo olfatório se localiza. O coronavírus pode induzir inflamação e até a “destruição” dessas células olfatórias. Mas, quando essas células passam pela regeneração, esse processo ocorre de forma anormal, afetando os neurônios olfatórios e causando a percepção distorcida dos cheiros.
Costuma desaparecer sozinha?
Sim, em muitos casos a parosmia desaparece espontaneamente à medida que os neurônios olfatórios se regeneram corretamente. Isso pode levar semanas a meses, mas há casos que persistem por anos, embora não seja comum. Nessa situação, é possível que regeneração dos neurônios olfatórios tenha sido incompleta ou defeituosa.
Embora seja raro, a parosmia pode se tornar permanente, especialmente se houver uma lesão irreversível nas células olfatórias ou nos circuitos neurais responsáveis pelo processamento dos odores.
“Meu filho não come nada”. Saiba tudo o que pode prejudicar a alimentação da criança
Como lidar com a parosmia?
Embora não tenha cura ou remédio, existem algumas estratégias que podem ajudar a aliviar os sintomas. Alguns tratamentos também estão em estudo, mas ainda não há nada definitivo. Confira:
Evitar alimentos com odores fortes, condimentados e apimentados;
Priorizar alimentos com texturas neutras e temperaturas variadas;
Experimentar temperos suaves para mascarar os odores desagradáveis;
Manter uma alimentação balanceada mesmo que seja necessário adaptar os ingredientes
Treinamento olfatório: exposição repetitiva a odores específicos (limão, cravo, eucalipto e rosa, por exemplo) para estimular a reabilitação olfatória;
Corticosteroides: em alguns casos, para reduzir a inflamação tanto da mucosa nasal quanto a inflamcao causada pelo vírus no nervo. Podemos estender o uso do corticoide tópico/nasal e o corticoide oral pode ser utilizado por curto período no início do tratamento. O uso é recomendado após com orientação médica;
Lavagem nasal com soro hipertônico 2% auxilia na redução do edema da mucosa e tem mostrado benefício em alguns estudos iniciais;
Suplementação de Ômega-3 e complexo B: pode auxiliar na regeneração celular;
Terapias experimentais: como neuromodulação e estimulação transcraniana, ainda em estudo.
Fonte: Augusto Riedel Abrahao, otorrinolaringologista na Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo.
Ana Paula Cadamuro, de São Paulo, que é dubladora de um programa infantil, conta que sente gostos e cheiros terríveis desde que desenvolveu parosmia, caracterizada pela distorção do olfato. “Eu perdi completamente o prazer de comer, hoje eu como só para não morrer”, disse, em entrevista a CRESCER. Conheça a história e saiba mais sobre a condição! Já imaginou sentir gosto de chorume ao comer um pedaço de frango? Ou o cheiro de pamonha ao abrir um amaciante? É isso que acontece com Ana Paula Cadamuro, 31, dubladora do programa infantil “Shasha e Milo”, de São Paulo, após contrair covid-19 em 2020. Ela desenvolveu uma condição chamada parosmia, caracterizada pela distorção do olfato. Geralmente, dura apenas algumas semanas ou meses e desaparece sozinha, mas esse não foi o caso de Ana Paula que, há cinco anos, convive com o problema.
Em vídeo viral, ela contou mais sobre a sua experiência com a condição. “Em 2020, eu tive covid. Depois de longos três meses sem olfato e paladar, eu desenvolvi uma condição chamada parosmia. Nada mais é do que os meus ‘divertida mentes’ em pânico correndo de um lado para o outro, plugando cabo onde não tem que plugar e todos os cheiros e gostos estão trocados na minha cabeça”, explica.
Mas não é só isso, a dubladora sente cheiros e gostos terríveis em tudo. “Eu sinto cheiro de podre, de estragado, de carniça e tudo isso vem acompanhado do gosto também. Desesperador! Para facilitar a vida, eu sempre explico para as pessoas que eu estou ‘daltônica do nariz'”, afirma.
Ana Paula é dubladora
Arquivo pessoal
Taboola Recommendation
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Para exemplificar, Ana Paula conta que frango tem gosto de chorume para ela, o amaciante de roupas tem cheiro de pamonha, o sabonete do rosto tem cheiro de pastel fritando e alguns produtos de limpeza tem cheiro de manteiga de pipoca do cinema. Creme de avelã tem gosto de uva, que ela odeia. Além disso, alguns shampoos, sabonetes e desodorantes tem cheiro de suor para ela.
“Para a sorte do meu marido, eu não sinto cheiro de pum, cocô, xixi, nada que se faça dentro do banheiro. Logo, ele pode peidar à vontade do meu lado e eu nunca vou saber. Nosso casamento nunca vai acabar”, brinca. No entanto, ir para um restaurante se tornou um pesadelo, pois cebola e alho tem gosto de carniça.
Repercussão na web
O vídeo viralizou, alcançando mais de 1 milhão de visualização e impressionando os internautas. Ana Paula nunca imaginou que a gravação chegaria a tanta gente. “O intuito não era viralizar, o intuito era encontrar outras pessoas que estejam passando por isso e que eu possa ajudar, porque quando começou a parosmia, eu simplesmente não encontrei ninguém. Era uma coisa muito difícil”, diz em entrevista à CRESCER.
A dubladora já conseguiu ajudar muitas pessoas que receberam o mesmo diagnóstico, o que a deixa muito contente. “Teve um caso que me chamou muita atenção que foi de uma mãe que o filho dela está com esse problema da parosmia. A pior parte é que ele tem também um problema nos rins e já tinha uma alimentação restrita. Agora, piorou tudo. Ela estava desesperada, porque ele não estava conseguindo comer, ele só passava mal, só vomitava. Eu fiz uma lista para ela do que eu comia nessa época, porque eu meio que passo por períodos, por exemplo, nos primeiros meses eu conseguia comer tal coisa. Eu tinha quase que um diário para que ficasse um pouco mais fácil para encontrar coisas similares para eu conseguir comer”, explica.
A ajuda de Ana Paula foi muito útil para essa mãe. “Foi um dia absurdamente incrível quando ela me mandou mensagem falando: ‘Ana, ele conseguiu comer’. Confesso que chorei. Fiquei muito feliz, porque eu conclui o meu objetivo”, diz. “Não gosto de dar esperança [de que a parosmia suma], mas também existe vida com parosmia, por pior que seja. Eu vou dando um jeito e a gente vai encontrando pessoas no caminho que ajudam a gente a lidar com tudo isso”, acrescenta.
“Além de não ter recuperado o olfato, sinto cheiro constante de cigarro”, relata gestante que teve covid
Tudo começou com a covid
A dubladora contraiu covid em junho de 2020, no início da pandemia. “Eu tive sintomas super leves! Tive muito cansaço e perdi totalmente olfato e paladar, mas fora isso, não senti mais nada”, afirma. Os sintomas da parosmia começaram em outubro daquele ano. “Cheguei em casa após o trabalho e fui fritar nuggets pra jantar. Depois que fritei, achei que eles estavam fora da validade, porque o cheiro estava totalmente insuportável, era cheiro de estragado mesmo. Depois disso, comecei a notar que todos os cheiros estavam terríveis e o gosto estava tão ruim quanto”, afirma.
Em novembro, os cheiros e gostos ruins não foram embora, por isso, ela decidiu procurar um médico para investigar o que estava acontecendo. Mas foi um longo caminho até ser diagnosticada. “Fui em cinco otorrinos e todos eles disseram que eu estava alucinando e que devia procurar um psiquiatra. Mas eu não estava convencida, então, fui atrás de artigos científicos publicados na Internet e descobri o que eu tinha”, diz.
Com a confirmação médica, ela foi diagnosticada com parosmia. “Uma parte de mim estava aliviada porque eu de fato não estava alucinando, mas outra parte estava muito preocupada, porque isso significava que o meu sistema nervoso tinha sido danificado por conta da covid”, lembra. A preocupação aumentou ainda mais quando descobriu que não tinha remédio, o corpo tem que se regenerar sozinho.
A parosmia afetou muito seu dia a dia. “Eu diria que acabou com a minha vida. Eu perdi completamente o prazer de comer, hoje eu como só para não morrer. Além disso, eu não tenho mais prazer em sentir cheiros bons e isso também é muito traumático. Perder dois prazeres grandes na vida me trouxeram depressão, ansiedade, crises de pânico, agorafobia [medo intenso de lugares públicos] e muitas outras coisas com as quais eu convivo diariamente”, lamenta.
“Além disso, é uma situação muito solitária. Você pode contar para as pessoas o que sente, mas raramente você vai ter alguém que entenda perfeitamente o que é isso, porque de fato você só entende quando vive”, adiciona.
Terapias
Embora não exista um remédio para tratar a condição, Ana Paula seguiu buscando maneiras de aliviar os sintomas. “Junto com a minha psiquiatra, tentamos muitas coisas, mas não tivemos sucesso. Todos os medicamentos eram tentativas e não havia nada que comprovadamente pudesse ajudar”, explica.
Em 2022, ela chegou a participar de uma pesquisa que fazia parte do Mestrado pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) durante quatro meses. Os pesquisadores estudaram 200 pessoas com sequelas graves de covid e tentaram ajudar com um tratamento não medicamentoso.
“Eu saí de lá com 35% do olfato funcionando e só conseguia identificar os cheiros de manjericão, canela e mel. Hoje eu só consigo identificar manjericão, acabei perdendo os outros cheiros. Mas durante a pesquisa, nós fizemos o treinamento olfativo com essências de cheiros conhecidos do nosso dia a dia, em especial de comidas”, afirma.
Covid-19 pode fazer com que crianças tenham dificuldade de comer bem
Infelizmente, não há expectativa que o olfato e o paladar de Ana Paula voltem ao normal. Até hoje os cheiros e gostos ruins ainda a incomodam. “Mas eu entendi que se eu não passasse a conviver melhor com esses cheiros, eu não iria sobreviver. Hoje eu trato minha alimentação como uma introdução alimentar de neném mesmo. Tento fingir que não sei que aquele cheiro e gosto não é o real e tento ver o que eu consigo pelo menos suportar. Não é fácil, mas depois de quase cinco anos, a gente acaba tendo que lidar de alguma forma”, finaliza.
O que é parosmia?
Parosmia é uma disfunção olfatória caracterizada por uma distorção do olfato. É diferente da anosmia, que é a perda completa do olfato, ou da hiposmia, que é a perda parcial do olfato. Pessoas com parosmia percebem odores normais de forma distorcida na maioria das vezes como desagradáveis, descritos como cheiro de queimado, podre ou químico.
O diagnóstico é feito por um otorrinolaringologista, que pode utilizar testes olfatórios para avaliar a extensão da disfunção. Além disso, exames de imagem, principalmente a ressonância magnética deve ser solicitada para descartar outras causas.
Parosmia x covid
A parosmia pode ocorrer após a covid-19 devido ao dano causado pelo vírus às células olfatórias presentes no nariz, que são responsáveis pela captação dos odores. Além de toda a infecção de via aérea superior levar a um edema da mucosa nasal e, com isso, acarretar uma hiposmia, uma vez que devido ao edema menos particulas chegarão ao local do nariz onde o nervo olfatório se localiza. O coronavírus pode induzir inflamação e até a “destruição” dessas células olfatórias. Mas, quando essas células passam pela regeneração, esse processo ocorre de forma anormal, afetando os neurônios olfatórios e causando a percepção distorcida dos cheiros.
Costuma desaparecer sozinha?
Sim, em muitos casos a parosmia desaparece espontaneamente à medida que os neurônios olfatórios se regeneram corretamente. Isso pode levar semanas a meses, mas há casos que persistem por anos, embora não seja comum. Nessa situação, é possível que regeneração dos neurônios olfatórios tenha sido incompleta ou defeituosa.
Embora seja raro, a parosmia pode se tornar permanente, especialmente se houver uma lesão irreversível nas células olfatórias ou nos circuitos neurais responsáveis pelo processamento dos odores.
“Meu filho não come nada”. Saiba tudo o que pode prejudicar a alimentação da criança
Como lidar com a parosmia?
Embora não tenha cura ou remédio, existem algumas estratégias que podem ajudar a aliviar os sintomas. Alguns tratamentos também estão em estudo, mas ainda não há nada definitivo. Confira:
Evitar alimentos com odores fortes, condimentados e apimentados;
Priorizar alimentos com texturas neutras e temperaturas variadas;
Experimentar temperos suaves para mascarar os odores desagradáveis;
Manter uma alimentação balanceada mesmo que seja necessário adaptar os ingredientes
Treinamento olfatório: exposição repetitiva a odores específicos (limão, cravo, eucalipto e rosa, por exemplo) para estimular a reabilitação olfatória;
Corticosteroides: em alguns casos, para reduzir a inflamação tanto da mucosa nasal quanto a inflamcao causada pelo vírus no nervo. Podemos estender o uso do corticoide tópico/nasal e o corticoide oral pode ser utilizado por curto período no início do tratamento. O uso é recomendado após com orientação médica;
Lavagem nasal com soro hipertônico 2% auxilia na redução do edema da mucosa e tem mostrado benefício em alguns estudos iniciais;
Suplementação de Ômega-3 e complexo B: pode auxiliar na regeneração celular;
Terapias experimentais: como neuromodulação e estimulação transcraniana, ainda em estudo.
Fonte: Augusto Riedel Abrahao, otorrinolaringologista na Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo.