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Por Antonio Machado
Teve o “dia da libertação”, como o presidente Donald Trump chamou o aumento generalizado de tarifas sobre bens importados pelos EUA, seguido do “dia da retaliação”, que foi a resposta da China, e vão ter dias, semanas, meses e anos de sequelas da implosão abrupta do livre comércio e da globalização das cadeias produtivas.
Nada será igual, ainda que Trump repita seu estilo de bater e, a depender das reações, dobrar a aposta ou recuar, pondo a culpa em que estiver à sua vista, ou negar o recuo, conforme seu estilo de usar adjetivos hiperbólicos, seja para se vangloriar ou atacar.
Foi o que fez ao anunciar as tarifas adicionais às já praticadas, o que no caso da China fará os 34% agora acrescentados passar de 50% para vários produtos, alegando que os americanos estão sendo “saqueados, pilhados, estuprados e depredados por nações próximas e distantes”, que negam ao país a “oportunidade de prosperar”.
Como muitas das ideias de Trump, segundo Eswar Prasad, professor da Universidade de Cornell e pesquisador do Brookings Institution, há mais que um fundo de verdade em suas alegações. “A China, por exemplo, aproveitou as regras da Organização Mundial do Comércio para obter acesso aos mercados de outros países, ao mesmo tempo em que limitou o acesso ao seu próprio mercado”, diz ele. “Pequim também usou subsídios extensivos e outras medidas [digo eu: roubar tecnologias no Ocidente] para impulsionar a competitividade global das empresas chinesas, inclusive forçando suas rivais estrangeiras a entregar tecnologia.” Isso talvez se resolvesse negociando.
Mas, em vez de consertar as regras do comércio global, Trump, diz Prasad, escolheu explodir o sistema inteiro, sem distinguir rivais e aliados. China agora enfrenta tarifas recordes, tais como Japão, Coreia do Sul, Taiwan e Índia, que são fortalezas avançadas dos EUA frente à influência da China na Ásia. As alianças geopolíticas de longa data e mutuamente benéficas serviram para pouco. Ou nada.
Ninguém com um pingo de juízo espera que a era do livre comércio retornará. A confiança foi rompida, por mais que Trump negocie as tarifas punitivas ou seja brando como foi com Brasil, tributado a 10% por ora de forma linear para tudo, de bananas a placas de aço. A prudência recomenda a cada país rever o que faz na economia.
Presta desserviço quem procura realçar supostas oportunidades que se abrem ao Brasil em meio ao caos tarifário – por exemplo, achar que a China comprará mais carne do Brasil, em vez de comprar dos EUA, ignorando o baque das exportações chinesas e as dificuldades que Pequim tem encontrado para trocar o seu modelo exportador de manufaturados pelo aumento do consumo interno. Todos vão penar.
Com a economia movida pelo dinamismo exportador dos alimentos não processados e minérios brutos, que empregam pouco e recolhem menos impostos que outras atividades, há tempos se alerta, no Brasil, ao risco de priorizar programas de promoção do consumo, normalmente via crédito e, sobretudo, transferências de renda, deixando para segundo plano o investimento na manufatura focada na inovação.
Confunde-se política industrial com facilitação do acesso a juro inferior ao de mercado para quaisquer setores, quando os programas bem-sucedidos no mundo contemplam áreas selecionadas onde há tanto condições de formação de quadros técnicos de excelência quanto de diferenciais tecnológicos – o caso chinês e indiano, que priorizam cadeias produtivas baseadas em recursos disponíveis. Tipo terras raras, na China, e gente com formação outstanding em ambos.
A expansão anos a fio de gasto público para lubrificar a demanda à revelia da construção da oferta e, dentro dela, de produção para valer e não montagem de partes e componentes importados – como se dá no setor automotivo, no eletroeletrônico, na informática -, é o que se tenta brecar com programas tipo “teto de gasto” e o tal “arcabouço fiscal”, em vez de atacar os problemas raiz.
O fato é que nosso modelo econômico, assentado em programas com a prioridade social na embalagem, e todos nasceram assim, mas com a intenção dissimulada de formar eleitores cativos, não em ajudá-lo a superar a pobreza, se esgarçou, e continua avançando, levando à expansão contínua do endividamento público e da carga tributária.
Isso é tratado como distorção fiscal, “gastança”, segundo o termo preferido dos fiscalistas, quando o problema é estrutural.
Não se pode julgar normal que com população de 212,5 milhões de habitantes, sendo 110,1 milhões na força de trabalho e 67 milhões fora, pouco mais de 100 milhões recebam recursos do setor público. Destes, há 96,9 milhões de benefícios (bolsa família, BPC, seguro defeso, aposentados do INSS etc.) e passa dos 100 milhões com a folha do funcionalismo federal, estadual e municipal.
O acompanhamento é do economista Fernando Montero, que o faz bem antes que alguém nos últimos governos atentasse para tal evolução.
“Chama atenção o impressionante avanço do número de beneficiários dos programas de transferência de renda”, diz. Comparado a 2019, foram 21,6 milhões de novas rendas acrescidas a tais programas.
Isso indica que ou há emprego de menos ou os empregos vem sendo ocupados por quem também recebe como se fosse desamparado social – os prestadores de serviços pagos via PIX e na economia informal.
Tamanhos excessos da política ou politicagem talvez expliquem as notas sofríveis que parcela crescente do piso da pirâmide de renda tem dado às grandes lideranças dos partidos. O cidadão se viu com autonomia pelos seus meios, além de tratar os eventuais benefícios sociais como mérito e direito de sua condição, e não como favor.
Tal percepção, somada à rebordosa da ordem econômica global por Trump e avanços tecnológicos tornando obsoleto o modo de produção de setores inteiros, exige, nem que seja de má vontade, mudanças estruturais na governança econômica do país.
Isso implica mudar a governança política e participação mais ativa do empresariado nas decisões. Não se terceiriza visão nacional. Ainda mais para os que, no Congresso, se veem mais como despachantes de causas impróprias que representantes de algum segmento social ou corrente de pensamento.
Assim estamos e parte da sacudida se deve a Trump, ainda que à revelia de suas intenções. 2026 está ali e não se permite errar.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn “
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Por Antonio Machado
Teve o “dia da libertação”, como o presidente Donald Trump chamou o aumento generalizado de tarifas sobre bens importados pelos EUA, seguido do “dia da retaliação”, que foi a resposta da China, e vão ter dias, semanas, meses e anos de sequelas da implosão abrupta do livre comércio e da globalização das cadeias produtivas.
Nada será igual, ainda que Trump repita seu estilo de bater e, a depender das reações, dobrar a aposta ou recuar, pondo a culpa em que estiver à sua vista, ou negar o recuo, conforme seu estilo de usar adjetivos hiperbólicos, seja para se vangloriar ou atacar.
Foi o que fez ao anunciar as tarifas adicionais às já praticadas, o que no caso da China fará os 34% agora acrescentados passar de 50% para vários produtos, alegando que os americanos estão sendo “saqueados, pilhados, estuprados e depredados por nações próximas e distantes”, que negam ao país a “oportunidade de prosperar”.
Como muitas das ideias de Trump, segundo Eswar Prasad, professor da Universidade de Cornell e pesquisador do Brookings Institution, há mais que um fundo de verdade em suas alegações. “A China, por exemplo, aproveitou as regras da Organização Mundial do Comércio para obter acesso aos mercados de outros países, ao mesmo tempo em que limitou o acesso ao seu próprio mercado”, diz ele. “Pequim também usou subsídios extensivos e outras medidas [digo eu: roubar tecnologias no Ocidente] para impulsionar a competitividade global das empresas chinesas, inclusive forçando suas rivais estrangeiras a entregar tecnologia.” Isso talvez se resolvesse negociando.
Mas, em vez de consertar as regras do comércio global, Trump, diz Prasad, escolheu explodir o sistema inteiro, sem distinguir rivais e aliados. China agora enfrenta tarifas recordes, tais como Japão, Coreia do Sul, Taiwan e Índia, que são fortalezas avançadas dos EUA frente à influência da China na Ásia. As alianças geopolíticas de longa data e mutuamente benéficas serviram para pouco. Ou nada.
Ninguém com um pingo de juízo espera que a era do livre comércio retornará. A confiança foi rompida, por mais que Trump negocie as tarifas punitivas ou seja brando como foi com Brasil, tributado a 10% por ora de forma linear para tudo, de bananas a placas de aço. A prudência recomenda a cada país rever o que faz na economia.
Presta desserviço quem procura realçar supostas oportunidades que se abrem ao Brasil em meio ao caos tarifário – por exemplo, achar que a China comprará mais carne do Brasil, em vez de comprar dos EUA, ignorando o baque das exportações chinesas e as dificuldades que Pequim tem encontrado para trocar o seu modelo exportador de manufaturados pelo aumento do consumo interno. Todos vão penar.
Com a economia movida pelo dinamismo exportador dos alimentos não processados e minérios brutos, que empregam pouco e recolhem menos impostos que outras atividades, há tempos se alerta, no Brasil, ao risco de priorizar programas de promoção do consumo, normalmente via crédito e, sobretudo, transferências de renda, deixando para segundo plano o investimento na manufatura focada na inovação.
Confunde-se política industrial com facilitação do acesso a juro inferior ao de mercado para quaisquer setores, quando os programas bem-sucedidos no mundo contemplam áreas selecionadas onde há tanto condições de formação de quadros técnicos de excelência quanto de diferenciais tecnológicos – o caso chinês e indiano, que priorizam cadeias produtivas baseadas em recursos disponíveis. Tipo terras raras, na China, e gente com formação outstanding em ambos.
A expansão anos a fio de gasto público para lubrificar a demanda à revelia da construção da oferta e, dentro dela, de produção para valer e não montagem de partes e componentes importados – como se dá no setor automotivo, no eletroeletrônico, na informática -, é o que se tenta brecar com programas tipo “teto de gasto” e o tal “arcabouço fiscal”, em vez de atacar os problemas raiz.
O fato é que nosso modelo econômico, assentado em programas com a prioridade social na embalagem, e todos nasceram assim, mas com a intenção dissimulada de formar eleitores cativos, não em ajudá-lo a superar a pobreza, se esgarçou, e continua avançando, levando à expansão contínua do endividamento público e da carga tributária.
Isso é tratado como distorção fiscal, “gastança”, segundo o termo preferido dos fiscalistas, quando o problema é estrutural.
Não se pode julgar normal que com população de 212,5 milhões de habitantes, sendo 110,1 milhões na força de trabalho e 67 milhões fora, pouco mais de 100 milhões recebam recursos do setor público. Destes, há 96,9 milhões de benefícios (bolsa família, BPC, seguro defeso, aposentados do INSS etc.) e passa dos 100 milhões com a folha do funcionalismo federal, estadual e municipal.
O acompanhamento é do economista Fernando Montero, que o faz bem antes que alguém nos últimos governos atentasse para tal evolução.
“Chama atenção o impressionante avanço do número de beneficiários dos programas de transferência de renda”, diz. Comparado a 2019, foram 21,6 milhões de novas rendas acrescidas a tais programas.
Isso indica que ou há emprego de menos ou os empregos vem sendo ocupados por quem também recebe como se fosse desamparado social – os prestadores de serviços pagos via PIX e na economia informal.
Tamanhos excessos da política ou politicagem talvez expliquem as notas sofríveis que parcela crescente do piso da pirâmide de renda tem dado às grandes lideranças dos partidos. O cidadão se viu com autonomia pelos seus meios, além de tratar os eventuais benefícios sociais como mérito e direito de sua condição, e não como favor.
Tal percepção, somada à rebordosa da ordem econômica global por Trump e avanços tecnológicos tornando obsoleto o modo de produção de setores inteiros, exige, nem que seja de má vontade, mudanças estruturais na governança econômica do país.
Isso implica mudar a governança política e participação mais ativa do empresariado nas decisões. Não se terceiriza visão nacional. Ainda mais para os que, no Congresso, se veem mais como despachantes de causas impróprias que representantes de algum segmento social ou corrente de pensamento.
Assim estamos e parte da sacudida se deve a Trump, ainda que à revelia de suas intenções. 2026 está ali e não se permite errar.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn “
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