As dores constantes no abdômen acompanharam Tatiane Freitas dos Santos, de 42 anos, por cinco anos. O que ela não imaginava é que o sofrimento era causado por uma compressa cirúrgica do tamanho de um celular, esquecida dentro de seu corpo durante o parto do filho, realizado em janeiro de 2020 no Hospital da Luz, da rede Amil, na Zona Sul de São Paulo.
Tatiane passou anos em busca de respostas. Ouviu suspeitas de isquemia intestinal, lipoma e até tumor. Chegaram a cogitar fibromialgia. Mas foi só em março de 2024, depois de visitar mais de quatro médicos e realizar diversos exames, que ela teve a confirmação: uma gaze cirúrgica havia sido deixada em seu abdômen no momento da cesárea.
O objeto, de cerca de 15 centímetros, causava dores agudas, principalmente quando ela se deitava. Tatiane só conseguiu marcar a cirurgia para remoção da compressa depois de acionar a Justiça contra a Amil e o hospital. A ação também incluía pedido de indenização por danos morais e materiais, além da cobertura de todos os custos médicos.
Pelo Código de Defesa do Consumidor, situações como a de Tatiane caracterizam falha na prestação de serviço, o que torna todos os envolvidos – hospital, profissionais de saúde e plano – responsáveis solidários. Em nota ao g1, a Amil declarou: “O Hospital da Luz informa que solicitou perícia médica à Justiça e que não houve, até o momento, decisão de mérito no processo judicial que está em curso. O hospital reitera que está à disposição da Justiça para os esclarecimentos necessários”.

Dores desde o parto
A recomendação para realizar a cesárea no Hospital da Luz veio da própria obstetra de Tatiane, que considerava a maternidade referência e adequada para sua gravidez de risco, após três abortos espontâneos.
Logo após o parto, ainda internada, Tatiane questionava as dores intensas na barriga. “A todo momento eu reclamava e as enfermeiras falavam: ‘mãezinha, é normal, são os órgãos voltando para o lugar”, disse a cabeleireira em entrevista ao g1.
Em casa, a situação não melhorou. Ela não suportava o peso do recém-nascido sobre o abdômen, e precisou colocar um travesseiro entre o corpo e o bebê para conseguir amamentar. Mesmo após o período de recuperação da cirurgia, as dores persistiam. Era 2020 e a chegada da pandemia fez com que ela deixasse a própria saúde em segundo plano: “Naquele momento, quem era eu para reclamar? Tanta gente morreu, né. A gente estava vivendo a época da pandemia, então eu fui convivendo com isso”.
Com o tempo, Tatiane decidiu retomar a busca por um diagnóstico. “Quando eu ficava deitada, eu sentia ele pulsando”, revelou a paulista. Em 2022, um médico suspeitou de isquemia intestinal, mas a hipótese foi descartada após um ultrassom. A angústia, no entanto, só aumentava: “A todo momento, Deus me livre, mas nessa hora eu achava que era um câncer, que era uma coisa pior”.

No ano seguinte, outro profissional apontou um possível lipoma, mas sugeriu não remover por ser pequeno. Já um terceiro médico chegou a considerar fibromialgia, doença crônica que causa dores no corpo.
Em agosto de 2024, uma aula de ioga se tornou um marco na história. Ao fazer uma posição que pressionava o abdômen, a cabeleireira sentiu uma dor insuportável. “Eu urrava de dor, não aguentei de tanta dor. Falei, não é normal, está acontecendo alguma coisa. Não é normal”, relembrou.
Foi então que decidiu procurar mais um médico: “Falei para o doutor, olha, já passei [no médico] em 2022, passei em 2023, alguma coisa não está certa, e eu preciso investigar”. Ele solicitou um novo ultrassom.
Descoberta do corpo estranho
Somente no ultrassom feito em setembro de 2024, uma médica apontou a presença de um “corpo estranho” e perguntou se Tatiane havia passado por alguma cirurgia. Além da cesárea, não havia nenhum outro procedimento.
A profissional explicou que o organismo havia formado uma cápsula de proteção ao redor do objeto como forma de defesa. Para investigar melhor, pediu uma tomografia e a encaminhou a um cirurgião, que também solicitou uma ressonância.
Tatiane marcou a ressonância no próprio Hospital da Luz. Ao informar o motivo do exame, notou uma movimentação incomum entre os funcionários, que questionavam o nome do médico responsável pela cesárea. No laudo, o que antes era descrito como “corpo estranho” virou “possível corpo estranho”, sem confirmar a presença do objeto.
Sem conseguir agendar uma consulta com o cirurgião e diante da falta de respostas, ela procurou o Serviço de Atendimento ao Consumidor do hospital e foi orientada a enviar um e-mail com os relatos. Como nada avançava, Tatiane contratou um advogado e entrou com uma ação judicial.
Caminho na Justiça
No processo, além da indenização e cobertura dos custos médicos, a cabeleireira solicitou uma tutela de urgência para realizar a cirurgia em outro hospital, o Santa Catarina, por não confiar mais na unidade onde havia feito a cesárea.
A liminar foi concedida em 20 de dezembro de 2024. A decisão do Tribunal de Justiça destacou “a presença da urgência diante do quadro de saúde retratado no laudo médico” e alertou que “a demora no início do tratamento pode dificultar, ou comprometer, a qualidade de vida da autora”.

Mesmo assim, Tatiane teve que continuar insistindo. Ligou diversas vezes para o hospital e o plano de saúde, acionou a Ouvidoria, mas escutava que o setor jurídico ainda não havia autorizado o procedimento ou que faltava um pedido médico.
Foi só após registrar uma reclamação na Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), em 31 de janeiro, que a situação começou a andar: “Quando fiz essa reclamação, não demorou dois dias para a Amil me mandar um WhatsApp”.
Em 18 de março de 2025, mais de cinco anos após o parto e três meses depois da liminar, Tatiane finalmente passou pela cirurgia para retirar a compressa esquecida em seu abdômen. “O problema não é o erro, o problema é como o erro é retratado. Eu não tive esse respaldo em nenhum momento. Eu escutava coisas que só me deixavam cada vez mais revoltada, porque eu falava: ‘Eles que erraram e eu que tenho que aguentar tudo isso?’”, questionou.
A recuperação agora impõe mais uma espera: o sonho de ter um segundo filho precisará ser adiado por pelo menos um ano, segundo recomendação médica. Tatiane lamenta o tempo perdido e o impacto das dores em sua maternidade. “Se eu disser que tive uma maternidade onde pude dar o meu melhor para ele, não é verdade, porque, com dores, às vezes impaciente, preocupada, pensando, o que será esse caroço?”, finalizou.
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As dores constantes no abdômen acompanharam Tatiane Freitas dos Santos, de 42 anos, por cinco anos. O que ela não imaginava é que o sofrimento era causado por uma compressa cirúrgica do tamanho de um celular, esquecida dentro de seu corpo durante o parto do filho, realizado em janeiro de 2020 no Hospital da Luz, da rede Amil, na Zona Sul de São Paulo.
Tatiane passou anos em busca de respostas. Ouviu suspeitas de isquemia intestinal, lipoma e até tumor. Chegaram a cogitar fibromialgia. Mas foi só em março de 2024, depois de visitar mais de quatro médicos e realizar diversos exames, que ela teve a confirmação: uma gaze cirúrgica havia sido deixada em seu abdômen no momento da cesárea.
O objeto, de cerca de 15 centímetros, causava dores agudas, principalmente quando ela se deitava. Tatiane só conseguiu marcar a cirurgia para remoção da compressa depois de acionar a Justiça contra a Amil e o hospital. A ação também incluía pedido de indenização por danos morais e materiais, além da cobertura de todos os custos médicos.
Pelo Código de Defesa do Consumidor, situações como a de Tatiane caracterizam falha na prestação de serviço, o que torna todos os envolvidos – hospital, profissionais de saúde e plano – responsáveis solidários. Em nota ao g1, a Amil declarou: “O Hospital da Luz informa que solicitou perícia médica à Justiça e que não houve, até o momento, decisão de mérito no processo judicial que está em curso. O hospital reitera que está à disposição da Justiça para os esclarecimentos necessários”.

Dores desde o parto
A recomendação para realizar a cesárea no Hospital da Luz veio da própria obstetra de Tatiane, que considerava a maternidade referência e adequada para sua gravidez de risco, após três abortos espontâneos.
Logo após o parto, ainda internada, Tatiane questionava as dores intensas na barriga. “A todo momento eu reclamava e as enfermeiras falavam: ‘mãezinha, é normal, são os órgãos voltando para o lugar”, disse a cabeleireira em entrevista ao g1.
Em casa, a situação não melhorou. Ela não suportava o peso do recém-nascido sobre o abdômen, e precisou colocar um travesseiro entre o corpo e o bebê para conseguir amamentar. Mesmo após o período de recuperação da cirurgia, as dores persistiam. Era 2020 e a chegada da pandemia fez com que ela deixasse a própria saúde em segundo plano: “Naquele momento, quem era eu para reclamar? Tanta gente morreu, né. A gente estava vivendo a época da pandemia, então eu fui convivendo com isso”.
Com o tempo, Tatiane decidiu retomar a busca por um diagnóstico. “Quando eu ficava deitada, eu sentia ele pulsando”, revelou a paulista. Em 2022, um médico suspeitou de isquemia intestinal, mas a hipótese foi descartada após um ultrassom. A angústia, no entanto, só aumentava: “A todo momento, Deus me livre, mas nessa hora eu achava que era um câncer, que era uma coisa pior”.

No ano seguinte, outro profissional apontou um possível lipoma, mas sugeriu não remover por ser pequeno. Já um terceiro médico chegou a considerar fibromialgia, doença crônica que causa dores no corpo.
Em agosto de 2024, uma aula de ioga se tornou um marco na história. Ao fazer uma posição que pressionava o abdômen, a cabeleireira sentiu uma dor insuportável. “Eu urrava de dor, não aguentei de tanta dor. Falei, não é normal, está acontecendo alguma coisa. Não é normal”, relembrou.
Foi então que decidiu procurar mais um médico: “Falei para o doutor, olha, já passei [no médico] em 2022, passei em 2023, alguma coisa não está certa, e eu preciso investigar”. Ele solicitou um novo ultrassom.
Descoberta do corpo estranho
Somente no ultrassom feito em setembro de 2024, uma médica apontou a presença de um “corpo estranho” e perguntou se Tatiane havia passado por alguma cirurgia. Além da cesárea, não havia nenhum outro procedimento.
A profissional explicou que o organismo havia formado uma cápsula de proteção ao redor do objeto como forma de defesa. Para investigar melhor, pediu uma tomografia e a encaminhou a um cirurgião, que também solicitou uma ressonância.
Tatiane marcou a ressonância no próprio Hospital da Luz. Ao informar o motivo do exame, notou uma movimentação incomum entre os funcionários, que questionavam o nome do médico responsável pela cesárea. No laudo, o que antes era descrito como “corpo estranho” virou “possível corpo estranho”, sem confirmar a presença do objeto.
Sem conseguir agendar uma consulta com o cirurgião e diante da falta de respostas, ela procurou o Serviço de Atendimento ao Consumidor do hospital e foi orientada a enviar um e-mail com os relatos. Como nada avançava, Tatiane contratou um advogado e entrou com uma ação judicial.
Caminho na Justiça
No processo, além da indenização e cobertura dos custos médicos, a cabeleireira solicitou uma tutela de urgência para realizar a cirurgia em outro hospital, o Santa Catarina, por não confiar mais na unidade onde havia feito a cesárea.
A liminar foi concedida em 20 de dezembro de 2024. A decisão do Tribunal de Justiça destacou “a presença da urgência diante do quadro de saúde retratado no laudo médico” e alertou que “a demora no início do tratamento pode dificultar, ou comprometer, a qualidade de vida da autora”.

Mesmo assim, Tatiane teve que continuar insistindo. Ligou diversas vezes para o hospital e o plano de saúde, acionou a Ouvidoria, mas escutava que o setor jurídico ainda não havia autorizado o procedimento ou que faltava um pedido médico.
Foi só após registrar uma reclamação na Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), em 31 de janeiro, que a situação começou a andar: “Quando fiz essa reclamação, não demorou dois dias para a Amil me mandar um WhatsApp”.
Em 18 de março de 2025, mais de cinco anos após o parto e três meses depois da liminar, Tatiane finalmente passou pela cirurgia para retirar a compressa esquecida em seu abdômen. “O problema não é o erro, o problema é como o erro é retratado. Eu não tive esse respaldo em nenhum momento. Eu escutava coisas que só me deixavam cada vez mais revoltada, porque eu falava: ‘Eles que erraram e eu que tenho que aguentar tudo isso?’”, questionou.
A recuperação agora impõe mais uma espera: o sonho de ter um segundo filho precisará ser adiado por pelo menos um ano, segundo recomendação médica. Tatiane lamenta o tempo perdido e o impacto das dores em sua maternidade. “Se eu disser que tive uma maternidade onde pude dar o meu melhor para ele, não é verdade, porque, com dores, às vezes impaciente, preocupada, pensando, o que será esse caroço?”, finalizou.
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