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6 Apr 2025, Sun



As tarifas globais de 10% anunciadas nesta semana pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entraram em vigor neste sábado 5, oficializando uma medida que ameaça perturbar ainda mais os mercados internacionais.

Na quarta-feira passada, dia que batizou de “Dia da Libertação”, Trump anunciou uma tarifa mínima de 10% sobre 184 países e territórios, além da União Europeia (UE), e em alguns casos aumentou as taxas.

No caso do Brasil, a alíquota foi mantida em 10%, mas chegou a ser incrementada em até 20% para produtos da UE ou até 54% para as exportações chinesas que chegam ao mercado americano.

Essa escalada tarifária adicional, aplicada apenas a alguns parceiros comerciais de Washington, entrará em vigor na próxima quarta-feira.

O que entra em vigor neste sábado é a tarifa global de 10% que afeta todos os produtos que os Estados Unidos importam de outras nações.

No entanto, produtos já carregados em um navio e em trânsito para os Estados Unidos antes das 00h01 deste sábado estão isentos da tarifa de 10%, de acordo com a ordem executiva assinada por Trump na quarta-feira. Essas mercadorias devem chegar aos EUA até 27 de maio para evitar taxas alfandegárias.

Essa exceção impede que mercadorias já a caminho dos Estados Unidos sejam afetadas pela mudança na alfândega.

A tarifa alfandegária é adicional aos impostos existentes, mas alguns produtos estão isentos, como petróleo, gás, cobre, ouro, prata, platina, paládio, madeira serrada, semicondutores, produtos farmacêuticos e minerais não encontrados em solo americano.

As importações de aço, alumínio e automóveis também não são afetadas, mas porque já estão sujeitas a sobretaxas de 25%.

O Canadá e o México, parceiros dos EUA no Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), estão sob um regime diferente: 25% sobre produtos fora do acordo (exceto 10% sobre hidrocarbonetos canadenses).

Escalada adicional

Na próxima quarta-feira 9, a guerra comercial declarada pelo republicano se intensifica, quando passam a valer impostos mais altos para outros países, incluindo aqueles que exportam mais do que importam.

Serão 54% a mais no total para a China (somando várias tarifas), 20% a mais para a União Europeia (UE), 46% adicionais para o Vietnã, 24% para o Japão, 15% para a Venezuela e 18% adicionais para a Nicarágua.

As Ilhas Malvinas terão tarifa de 41%. A Argentina e o Reino Unido reivindicam a soberania sobre esse arquipélago, chamado de Ilhas Falkland pelos britânicos.

Ameaça às bases do livre-comércio

As tarifas impostas por Trump ameaçam os fundamentos do livre-comércio que definem o mundo há décadas e já desencadearam uma guerra comercial com aliados tradicionais de Washington, como o Canadá, e adversários como a China, que anunciou suas próprias tarifas.

As taxações também alimentaram temores de uma desaceleração econômica, com o maior banco dos EUA, o JPMorgan Chase, aumentando as chances de uma recessão global de 40% para 60%.

Nos EUA, o presidente do Federal Reserve (Fed, banco central americano), Jerome Powell, advertiu na sexta-feira que as tarifas de Trump poderiam levar a uma inflação mais alta e a um menor crescimento econômico, ressaltando que uma inflação mais alta poderia ser persistente e não temporária.

As tarifas também ameaçam aumentar o preço de bens como moradia, carros e roupas nos EUA, prejudicando particularmente as famílias mais pobres do país, que podem sofrer uma perda de capital de até 5,5%, de acordo com um estudo de um centro de pesquisa da Universidade de Yale.

Impacto da resposta chinesa

A resposta da China aos Estados Unidos – 34% de tarifas adicionais e controle sobre determinados produtos – corre o risco de atingir duramente os setores agrícola, energético e farmacêutico da maior economia do mundo, grandes exportadores da República Popular.

A China é o terceiro maior destino de exportação dos Estados Unidos, com US$ 144,6 bilhões em produtos vendidos em 2024, muito atrás do Canadá e do México. Ao mesmo tempo, o segundo país mais populoso do mundo vendeu US$ 439,7 bilhões em produtos para os Estados Unidos.

“Embora os Estados Unidos obviamente continuem sendo um mercado muito importante” para a China, no lado das importações, “um número menor de empresas chinesas depende de fornecedores americanos”, explica Lynn Song, economista-chefe do ING para a China.

A China, maior importadora mundial de soja, encomendou mais de 22 milhões de toneladas da oleaginosa dos Estados Unidos em 2024. Segundo Scott Gerlt, economista-chefe da Associação Americana de Produtores de Soja, este país sozinho absorveu 52% das exportações norte-americanas de glicina max, seu nome científico.

“Os agricultores americanos vão sofrer”, previu Wendy Cutler, vice-presidente do Asia Society Policy Institute, “porque seus produtos agrícolas ficarão caros demais para serem competitivos”.

As exportações de grãos e oleaginosas dos EUA para a China valeram US$ 15,5 bilhões no ano passado, de acordo com o Departamento de Comércio dos EUA. Os preços da soja nos EUA caíram na sexta-feira após o anúncio da resposta da China, num recuo de 3,41% na sessão.

Efeito para o Brasil

Segundo Paulo Gala, professor da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), o Brasil tende a ser beneficiado pela retaliação chinesa. “Os produtos americanos ficariam mais caros na China, e os brasileiros, mais baratos”, resume.

Esse movimento já está em curso. Desde março, Pequim aplica tarifas de 15% sobre carne de frango, trigo, milho e algodão dos EUA. Carne bovina, sorgo e soja foram sobretaxados em 10%. O Brasil acompanha essas mudanças como o maior exportador global de soja.

Enquanto o comércio de soja entre EUA e China despenca, as exportações brasileiras crescem. Apenas entre janeiro e fevereiro deste ano, 79% da soja exportada pelo Brasil teve como destino a China — aumento de 4% na comparação com o mesmo período de 2024, segundo a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec).

Para Gala, a menor dependência chinesa do setor agrícola norte-americano fortalece a posição de Pequim. “A China hoje depende muito menos dos EUA do que há dez anos. Ainda há relevância, mas ela tem o mundo inteiro como mercado. As tarifas vão prejudicar mais os EUA do que a Ásia e a China.”

(Com DW, RFI e AFP)

As tarifas globais de 10% anunciadas nesta semana pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entraram em vigor neste sábado 5, oficializando uma medida que ameaça perturbar ainda mais os mercados internacionais.

Na quarta-feira passada, dia que batizou de “Dia da Libertação”, Trump anunciou uma tarifa mínima de 10% sobre 184 países e territórios, além da União Europeia (UE), e em alguns casos aumentou as taxas.

No caso do Brasil, a alíquota foi mantida em 10%, mas chegou a ser incrementada em até 20% para produtos da UE ou até 54% para as exportações chinesas que chegam ao mercado americano.

Essa escalada tarifária adicional, aplicada apenas a alguns parceiros comerciais de Washington, entrará em vigor na próxima quarta-feira.

O que entra em vigor neste sábado é a tarifa global de 10% que afeta todos os produtos que os Estados Unidos importam de outras nações.

No entanto, produtos já carregados em um navio e em trânsito para os Estados Unidos antes das 00h01 deste sábado estão isentos da tarifa de 10%, de acordo com a ordem executiva assinada por Trump na quarta-feira. Essas mercadorias devem chegar aos EUA até 27 de maio para evitar taxas alfandegárias.

Essa exceção impede que mercadorias já a caminho dos Estados Unidos sejam afetadas pela mudança na alfândega.

A tarifa alfandegária é adicional aos impostos existentes, mas alguns produtos estão isentos, como petróleo, gás, cobre, ouro, prata, platina, paládio, madeira serrada, semicondutores, produtos farmacêuticos e minerais não encontrados em solo americano.

As importações de aço, alumínio e automóveis também não são afetadas, mas porque já estão sujeitas a sobretaxas de 25%.

O Canadá e o México, parceiros dos EUA no Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), estão sob um regime diferente: 25% sobre produtos fora do acordo (exceto 10% sobre hidrocarbonetos canadenses).

Escalada adicional

Na próxima quarta-feira 9, a guerra comercial declarada pelo republicano se intensifica, quando passam a valer impostos mais altos para outros países, incluindo aqueles que exportam mais do que importam.

Serão 54% a mais no total para a China (somando várias tarifas), 20% a mais para a União Europeia (UE), 46% adicionais para o Vietnã, 24% para o Japão, 15% para a Venezuela e 18% adicionais para a Nicarágua.

As Ilhas Malvinas terão tarifa de 41%. A Argentina e o Reino Unido reivindicam a soberania sobre esse arquipélago, chamado de Ilhas Falkland pelos britânicos.

Ameaça às bases do livre-comércio

As tarifas impostas por Trump ameaçam os fundamentos do livre-comércio que definem o mundo há décadas e já desencadearam uma guerra comercial com aliados tradicionais de Washington, como o Canadá, e adversários como a China, que anunciou suas próprias tarifas.

As taxações também alimentaram temores de uma desaceleração econômica, com o maior banco dos EUA, o JPMorgan Chase, aumentando as chances de uma recessão global de 40% para 60%.

Nos EUA, o presidente do Federal Reserve (Fed, banco central americano), Jerome Powell, advertiu na sexta-feira que as tarifas de Trump poderiam levar a uma inflação mais alta e a um menor crescimento econômico, ressaltando que uma inflação mais alta poderia ser persistente e não temporária.

As tarifas também ameaçam aumentar o preço de bens como moradia, carros e roupas nos EUA, prejudicando particularmente as famílias mais pobres do país, que podem sofrer uma perda de capital de até 5,5%, de acordo com um estudo de um centro de pesquisa da Universidade de Yale.

Impacto da resposta chinesa

A resposta da China aos Estados Unidos – 34% de tarifas adicionais e controle sobre determinados produtos – corre o risco de atingir duramente os setores agrícola, energético e farmacêutico da maior economia do mundo, grandes exportadores da República Popular.

A China é o terceiro maior destino de exportação dos Estados Unidos, com US$ 144,6 bilhões em produtos vendidos em 2024, muito atrás do Canadá e do México. Ao mesmo tempo, o segundo país mais populoso do mundo vendeu US$ 439,7 bilhões em produtos para os Estados Unidos.

“Embora os Estados Unidos obviamente continuem sendo um mercado muito importante” para a China, no lado das importações, “um número menor de empresas chinesas depende de fornecedores americanos”, explica Lynn Song, economista-chefe do ING para a China.

A China, maior importadora mundial de soja, encomendou mais de 22 milhões de toneladas da oleaginosa dos Estados Unidos em 2024. Segundo Scott Gerlt, economista-chefe da Associação Americana de Produtores de Soja, este país sozinho absorveu 52% das exportações norte-americanas de glicina max, seu nome científico.

“Os agricultores americanos vão sofrer”, previu Wendy Cutler, vice-presidente do Asia Society Policy Institute, “porque seus produtos agrícolas ficarão caros demais para serem competitivos”.

As exportações de grãos e oleaginosas dos EUA para a China valeram US$ 15,5 bilhões no ano passado, de acordo com o Departamento de Comércio dos EUA. Os preços da soja nos EUA caíram na sexta-feira após o anúncio da resposta da China, num recuo de 3,41% na sessão.

Efeito para o Brasil

Segundo Paulo Gala, professor da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), o Brasil tende a ser beneficiado pela retaliação chinesa. “Os produtos americanos ficariam mais caros na China, e os brasileiros, mais baratos”, resume.

Esse movimento já está em curso. Desde março, Pequim aplica tarifas de 15% sobre carne de frango, trigo, milho e algodão dos EUA. Carne bovina, sorgo e soja foram sobretaxados em 10%. O Brasil acompanha essas mudanças como o maior exportador global de soja.

Enquanto o comércio de soja entre EUA e China despenca, as exportações brasileiras crescem. Apenas entre janeiro e fevereiro deste ano, 79% da soja exportada pelo Brasil teve como destino a China — aumento de 4% na comparação com o mesmo período de 2024, segundo a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec).

Para Gala, a menor dependência chinesa do setor agrícola norte-americano fortalece a posição de Pequim. “A China hoje depende muito menos dos EUA do que há dez anos. Ainda há relevância, mas ela tem o mundo inteiro como mercado. As tarifas vão prejudicar mais os EUA do que a Ásia e a China.”

(Com DW, RFI e AFP)



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