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Juros escorchantes geram custo extra de R$ 242 bi desde setembro
por Lauro Veiga Filho
O choque de juros produzido pela política de arrocho adotada pelo Banco Central (BC) deixou um custo, até o começo deste ano, de pelo menos R$ 242,04 bilhões para empresas, famílias e governos, numa estimativa que considera as séries estatísticas do próprio BC para o mercado de crédito e para as contas fiscais do setor público como um todo. Aquele foi o valor gasto a mais por governos e pelo setor privado para fazer frente aos juros cobrados pelos mercados, seja para remunerar compradores de títulos públicos, seja para pagar encargos financeiros que incidem sobre empréstimos e financiamento tomados por pessoas físicas e jurídicas.
Toda aquela despesa extra correspondeu a algo como 2,04% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado pelo BC para os 12 meses terminados em janeiro deste ano. E foi gerada em grande parte pela escalada dos juros básicos, que terminam afetando duplamente a economia ao pressionar o orçamento das famílias e o balanço das empresas e ao incrementar as despesas do governo, drenando recursos que poderiam ter sido destinados a gastos verdadeiramente essenciais e a investimentos. A chamada “taxa Selic” (sigla para Sistema Especial de Liquidação e Custódia, onde ocorre a liquidação das operações de compra e venda de títulos federais) saiu de 10,50% ao ano em meados de setembro do ano passado para 12,25% ao final daquele mesmo ano, subindo para 14,25% a partir do dia 20 deste mês.
Numa aproximação, pode-se inferir que este tem sido o custo imposto à economia pela política de combate à inflação, já que a política macroeconômica em vigor desde o final dos anos 1990 definiu a taxa básica de juros como único instrumento a ser acionado em caso de altas de preços. No famigerado “tripé macroeconômico” imposto ao País pelo consenso estabelecido pelos mercados, que contempla metas anuais para a inflação, superávits primários e câmbio flutuante, com desregulação total da conta de capitais, liberando os fluxos de entrada e saída de dólares ao sabor da grande especulação internacional, os juros atuam em tese para esfriar a demanda e, dessa forma, esvaziar pressões inflacionárias. Efetivamente, no entanto, o câmbio tem sido utilizado como instrumento para atrair dólares, associados especialmente a aplicações de curto prazo e altamente voláteis.
Focos sazonais
As escolhas de política econômica em todo esse período tem imposto custos pesados para a atividade econômica e para a gestão fiscal, já que as despesas financeiras do setor público têm ajudado a elevar a dívida pública, com piora nos níveis de endividamento medidos pela relação entre o saldo daquela dívida e o PIB. Mais recentemente, no entanto, o surgimento de pressões inflacionárias parece ter maior relação com fatores alheios à demanda, com focos nitidamente localizados, surgidos a partir de pressões altistas em três setores principais – a saber, tarifas residenciais da energia elétrica, gasolina, etanol e, em menor escala, diesel, e ainda cursos regulares (ensinos fundamental, médio e superior), resultado da “safra” de matrículas e de reajustes de mensalidades escolares, que sazonalmente ocorrem nesta época todos os anos.
Como já divulgado, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), apurado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atingiu 1,31% em fevereiro deste ano, taxa mensal mais elevada desde março de 2022 (quando o índice havia alcançado 1,62%). As altas de 16,80% na tarifa média da energia, de 2,78% para os preços da gasolina, de 3,62% para o etanol, de 4,35% no caso do diesel e de 5,69% nos cursos regulares responderam por 75,5% do IPCA “cheio”.
Excluídos aqueles itens, os demais preços apresentaram variação de 0,32% frente a 0,66% em janeiro. Parte dessa redução, de toda forma, pode ser atribuída ao tombo de 20,46% nos preços das passagens aéreas, um item de extrema volatilidade e sujeito a oscilações bruscas, que havia apresentado salto de 10,42% janeiro. Excluídas as passagens do cálculo, a taxa de variação teria recuado de 0,59% em janeiro para 0,48% em fevereiro.
Os preços dos alimentos, que foram determinantes na formação do IPCA de janeiro, passaram a contribuir com 11,7% na composição do índice em fevereiro. Essa redução da influência do custo da alimentação, entretanto, pode ser explicada pelo maior impacto exercido pelos preços da energia, combustíveis e educação. Ainda assim, a variação média dos alimentos no domicílio saiu de 1,07% para 0,79%.
Custo bilionário
A conta dos juros leva em consideração, inicialmente, a evolução a partir de setembro do ano passado, quando começou o novo ciclo de arrocho ao crédito, do saldo dos empréstimos contratados por empresas e pelas famílias com recursos oferecidos livremente pelo sistema financeiro. Naquele mês, as empresas registravam em torno de R$ 1,535 trilhão em operações de crédito livremente contratadas, com R$ 2,088 trilhões acumulados pelas famílias. Em janeiro deste ano, segundo dados do BC, o saldo das contratações realizadas pelas empresas havia apresentado variação muito modesta, subindo 0,9% e alcançando R$ 1,549 trilhão. Mas as famílias tiveram o estoque de crédito ampliado em 5,22%, para R$ 2,197 trilhões.
As taxas de juros impostas às empresas saíram de 20,6% para 24,2% em 12 meses, o que fez o gasto estimado com pagamento apenas de juros subir de R$ 316,15 bilhões para R$ 374,88 bilhões, em alta de 18,58% (ou R$ 58,8 bilhões a mais). O custo dos empréstimos para as famílias subiu menos, até porque já se encontrava em níveis absurdos. Mas registrou-se avanço de 52,3% para 53,9% ao ano, o que levou a um incremento de 8,44% na despesa com juros nesta área (saindo de R$ 1,092 trilhão para R$ 1,184 trilhão, num acréscimo de R$ 92,2 bilhões). Somados aqui, os gastos com juros aumentaram R$ 150,9 bilhões em valores aproximados.
Nas contas do governo geral, instância que inclui a União, governos estaduais, prefeituras e estatais, os juros nominais haviam consumido R$ 819,704 bilhões em 12 meses até setembro do ano passado, aumentando 11,12% até janeiro deste ano, para R$ 901,867 bilhões – quer dizer, em torno de R$ 91,163 bilhões a mais. Num agravante, a “gastança” de juros tem sido de fato determinante para o aumento da dívida pública, deteriorando a relação entre endividamento e o PIB.
Na consolidação, somadas as despesas das empresas, das famílias e dos governos, os juros teriam subido de R$ 2,228 trilhões, em torno de 19,28% do PIB em setembro do ano passado, para quase R$ 2,470 bilhões em janeiro deste ano, correspondendo a 20,80% do produto. No geral, esse tipo de gasto cresceu 10,86% em valores nominais, desviando R$ 242,04 bilhões do lado real da economia, qualquer coisa próxima de 2,04% do PIB projetado até janeiro deste ano pelo BC.
Lauro Veiga Filho – Jornalista, foi secretário de redação do Diário Comércio & Indústria, editor de economia da Visão, repórter da Folha de S.Paulo em Brasília, chefiou o escritório da Gazeta Mercantil em Goiânia e colabora com o jornal Valor Econômico.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
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Juros escorchantes geram custo extra de R$ 242 bi desde setembro
por Lauro Veiga Filho
O choque de juros produzido pela política de arrocho adotada pelo Banco Central (BC) deixou um custo, até o começo deste ano, de pelo menos R$ 242,04 bilhões para empresas, famílias e governos, numa estimativa que considera as séries estatísticas do próprio BC para o mercado de crédito e para as contas fiscais do setor público como um todo. Aquele foi o valor gasto a mais por governos e pelo setor privado para fazer frente aos juros cobrados pelos mercados, seja para remunerar compradores de títulos públicos, seja para pagar encargos financeiros que incidem sobre empréstimos e financiamento tomados por pessoas físicas e jurídicas.
Toda aquela despesa extra correspondeu a algo como 2,04% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado pelo BC para os 12 meses terminados em janeiro deste ano. E foi gerada em grande parte pela escalada dos juros básicos, que terminam afetando duplamente a economia ao pressionar o orçamento das famílias e o balanço das empresas e ao incrementar as despesas do governo, drenando recursos que poderiam ter sido destinados a gastos verdadeiramente essenciais e a investimentos. A chamada “taxa Selic” (sigla para Sistema Especial de Liquidação e Custódia, onde ocorre a liquidação das operações de compra e venda de títulos federais) saiu de 10,50% ao ano em meados de setembro do ano passado para 12,25% ao final daquele mesmo ano, subindo para 14,25% a partir do dia 20 deste mês.
Numa aproximação, pode-se inferir que este tem sido o custo imposto à economia pela política de combate à inflação, já que a política macroeconômica em vigor desde o final dos anos 1990 definiu a taxa básica de juros como único instrumento a ser acionado em caso de altas de preços. No famigerado “tripé macroeconômico” imposto ao País pelo consenso estabelecido pelos mercados, que contempla metas anuais para a inflação, superávits primários e câmbio flutuante, com desregulação total da conta de capitais, liberando os fluxos de entrada e saída de dólares ao sabor da grande especulação internacional, os juros atuam em tese para esfriar a demanda e, dessa forma, esvaziar pressões inflacionárias. Efetivamente, no entanto, o câmbio tem sido utilizado como instrumento para atrair dólares, associados especialmente a aplicações de curto prazo e altamente voláteis.
Focos sazonais
As escolhas de política econômica em todo esse período tem imposto custos pesados para a atividade econômica e para a gestão fiscal, já que as despesas financeiras do setor público têm ajudado a elevar a dívida pública, com piora nos níveis de endividamento medidos pela relação entre o saldo daquela dívida e o PIB. Mais recentemente, no entanto, o surgimento de pressões inflacionárias parece ter maior relação com fatores alheios à demanda, com focos nitidamente localizados, surgidos a partir de pressões altistas em três setores principais – a saber, tarifas residenciais da energia elétrica, gasolina, etanol e, em menor escala, diesel, e ainda cursos regulares (ensinos fundamental, médio e superior), resultado da “safra” de matrículas e de reajustes de mensalidades escolares, que sazonalmente ocorrem nesta época todos os anos.
Como já divulgado, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), apurado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atingiu 1,31% em fevereiro deste ano, taxa mensal mais elevada desde março de 2022 (quando o índice havia alcançado 1,62%). As altas de 16,80% na tarifa média da energia, de 2,78% para os preços da gasolina, de 3,62% para o etanol, de 4,35% no caso do diesel e de 5,69% nos cursos regulares responderam por 75,5% do IPCA “cheio”.
Excluídos aqueles itens, os demais preços apresentaram variação de 0,32% frente a 0,66% em janeiro. Parte dessa redução, de toda forma, pode ser atribuída ao tombo de 20,46% nos preços das passagens aéreas, um item de extrema volatilidade e sujeito a oscilações bruscas, que havia apresentado salto de 10,42% janeiro. Excluídas as passagens do cálculo, a taxa de variação teria recuado de 0,59% em janeiro para 0,48% em fevereiro.
Os preços dos alimentos, que foram determinantes na formação do IPCA de janeiro, passaram a contribuir com 11,7% na composição do índice em fevereiro. Essa redução da influência do custo da alimentação, entretanto, pode ser explicada pelo maior impacto exercido pelos preços da energia, combustíveis e educação. Ainda assim, a variação média dos alimentos no domicílio saiu de 1,07% para 0,79%.
Custo bilionário
A conta dos juros leva em consideração, inicialmente, a evolução a partir de setembro do ano passado, quando começou o novo ciclo de arrocho ao crédito, do saldo dos empréstimos contratados por empresas e pelas famílias com recursos oferecidos livremente pelo sistema financeiro. Naquele mês, as empresas registravam em torno de R$ 1,535 trilhão em operações de crédito livremente contratadas, com R$ 2,088 trilhões acumulados pelas famílias. Em janeiro deste ano, segundo dados do BC, o saldo das contratações realizadas pelas empresas havia apresentado variação muito modesta, subindo 0,9% e alcançando R$ 1,549 trilhão. Mas as famílias tiveram o estoque de crédito ampliado em 5,22%, para R$ 2,197 trilhões.
As taxas de juros impostas às empresas saíram de 20,6% para 24,2% em 12 meses, o que fez o gasto estimado com pagamento apenas de juros subir de R$ 316,15 bilhões para R$ 374,88 bilhões, em alta de 18,58% (ou R$ 58,8 bilhões a mais). O custo dos empréstimos para as famílias subiu menos, até porque já se encontrava em níveis absurdos. Mas registrou-se avanço de 52,3% para 53,9% ao ano, o que levou a um incremento de 8,44% na despesa com juros nesta área (saindo de R$ 1,092 trilhão para R$ 1,184 trilhão, num acréscimo de R$ 92,2 bilhões). Somados aqui, os gastos com juros aumentaram R$ 150,9 bilhões em valores aproximados.
Nas contas do governo geral, instância que inclui a União, governos estaduais, prefeituras e estatais, os juros nominais haviam consumido R$ 819,704 bilhões em 12 meses até setembro do ano passado, aumentando 11,12% até janeiro deste ano, para R$ 901,867 bilhões – quer dizer, em torno de R$ 91,163 bilhões a mais. Num agravante, a “gastança” de juros tem sido de fato determinante para o aumento da dívida pública, deteriorando a relação entre endividamento e o PIB.
Na consolidação, somadas as despesas das empresas, das famílias e dos governos, os juros teriam subido de R$ 2,228 trilhões, em torno de 19,28% do PIB em setembro do ano passado, para quase R$ 2,470 bilhões em janeiro deste ano, correspondendo a 20,80% do produto. No geral, esse tipo de gasto cresceu 10,86% em valores nominais, desviando R$ 242,04 bilhões do lado real da economia, qualquer coisa próxima de 2,04% do PIB projetado até janeiro deste ano pelo BC.
Lauro Veiga Filho – Jornalista, foi secretário de redação do Diário Comércio & Indústria, editor de economia da Visão, repórter da Folha de S.Paulo em Brasília, chefiou o escritório da Gazeta Mercantil em Goiânia e colabora com o jornal Valor Econômico.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
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